Segunda, 06 Agosto 2018 15:34

Surto de toxoplasmose no Rio Grande do Sul ainda não foi esclarecido

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iG São Paulo

Mesmo depois de quase quatro meses, autoridades não conseguiram definir as causas dos mais de 600 casos confirmados da doença em Santa Maria

Para o Ministério da Saúde, a causa provável do surto de toxoplasmose é a contaminação pela água

Para o Ministério da Saúde, a causa provável do surto de toxoplasmose é a contaminação pela água

Foto: shutterstock

Ainda não há causas definidas para o surto de toxoplasmose no Rio Grande do Sul. Quase quatro meses após o registro dos primeiros casos no município de Santa Maria, desde o dia 16 de abril, a Secretaria de Saúde do estado contabilizou 634 casos confirmados.

Do total de registros de toxoplasmose, 54 se tratam de gestantes, quando a doença é particularmente perigosa por colocar em risco a saúde do feto. Ao ser transmitida para o feto pela mãe pode provocar a morte do bebê ou efeitos permanentes à criança, como cegueira e comprometimento neurológico. Há ainda 529 casos em investigação, sendo 173 em gestantes.

O Ministério da Saúde informou que o surto no Rio Grande do Sul tem como causa provável a contaminação pela água, com possível contaminação de hortaliças como causa secundária. O parecer foi apresentado ao estado e ao município no fim de junho, após análise de dados do controle feito pela pasta, em conjunto com gestores locais.

“Vale ressaltar que as outras possíveis causas comuns em casos de toxoplasmose foram eliminadas durante a pesquisa, como carne bovina, de frango e queijos, entre outros alimentos. No entanto, a investigação continuará sendo realizada”, informou o ministério, em nota.

Como medida de precaução, uma vez que a água é a fonte mais provável da infecção, a pasta reforçou a necessidade de a população intensificar medidas de prevenção, como evitar o uso de produtos animais crus ou mal cozidos, eliminar as fezes de gatos em lixo seguro, proteger as caixas de areia e lavar as mãos após manipular carne crua ou terra contaminada.

Leia também: Casos de toxoplasmose no Rio Grande do Sul inclui 50 grávidas e preocupa médicos

Autoridades sanitárias enfrentam dificuldades

A toxoplasmose é particularmente perigosa para gestantes por colocar em risco a saúde do feto

A toxoplasmose é particularmente perigosa para gestantes por colocar em risco a saúde do feto

Foto: shutterstock/Reprodução

Um dos problemas enfrentados pelas autoridades sanitárias de Santa Maria é que, em meio às centenas de casos de infecção confirmados, profissionais de saúde não contam com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêutica.

O documento define critérios claros de diagnóstico e tratamento da toxoplasmose, com as doses adequadas de medicamentos e os mecanismos para monitoramento clínico.

Infectologista há 20 anos, Alexandre Schwarzbold participou de uma audiência pública via videoconferência em junho e disse estar acostumado a ver casos de toxoplasmose. Ele garante, entretanto, que o surto em Santa Maria apresenta particularidades importantes e grande impacto social, já que a doença apresenta alto índice de mortalidade entre crianças pequenas e recém-nascidos.

“Estamos diante de uma situação ambiental não documentada”, disse, ao se referir à possibilidade de a fonte do surto estar ligada à água e alimentos contaminados e ofertados no próprio município.

“Isso serve de modelo de oportunidade para que o ministério estabeleça um protocolo para essa doença, um protocolo amplo, desde prevenção, insumos diagnósticos e disponibilização de medicamentos.”

A também infectologista Jane Margarete Costa acompanha com preocupação o surto no município. Via videoconferência, ela destacou o trabalho de mutirão de profissionais de saúde para dar conta da demanda de gestantes infectadas no Rio Grande do Sul.

O tratamento, nesses casos, deve ser iniciado o quanto antes e mantido até o final da gravidez. Mulheres com mais de 18 semanas de gestação com resultado positivo para toxoplasmose recebem um coquetel de 11 medicamentos na tentativa de proteger o feto de sequelas mais graves.

Segundo a infectologista, as orientações para a população geral e para as grávidas, particularmente, incluem não beber água in natura, apenas fervida; não consumir alimentos crus; e manter as carnes devidamente refrigeradas e, posteriormente, cozinhá-las muito bem antes do consumo.

Durante a audiência pública, a médica chegou a sugerir que novas gestações sejam evitadas até que a situação no município se normalize.

“Como técnica da área de saúde, eu reafirmo: em hipótese alguma, podemos passar para a população uma ideia de segurança quanto a fontes ambientais, água, alimentos. Todas as pessoas têm que manter cuidados preconizados”, disse, ao cobrar o que chamou de mudança de paradigmas.

“Há um risco de 25% de contaminação do feto no primeiro trimestre, quando pelo menos a metade dos casos vai resultar em aborto e os outros terão sequelas importantes.”

Ao final da audiência, uma lista de demandas foi entregue ao Ministério da Saúde: a adoção de um protocolo nacional de diretrizes terapêuticas em casos de epidemia de toxoplasmose; o reforço da verba para o Hospital Universitário de Santa Maria; definição de diretrizes para a realização de exame mensal da doença durante o pré-natal; e a detecção da toxoplasmose no teste do pezinho, além da promoção de uma política de prevenção da doença nacionalmente.

Durante o debate, o secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, Osnei Okumoto, garantiu o que chamou de envolvimento da pasta no monitoramento e no controle do surto de toxoplasmose em Santa Maria. Ele disse que mantém conversas com a Secretaria de Ciência e Tecnologia no intuito de conseguir mais verba e investimentos para o combate à doença no município gaúcho.

Por meio de nota, a pasta informou que o surto tem como causa provável a contaminação pela água, com possível contaminação de hortaliças como causa secundária. O parecer foi apresentado ao estado e ao município na última terça-feira (26), após análise dos dados do estudo de caso feito por uma equipe do ministério em conjunto com os gestores locais.

“Vale ressaltar que as outras possíveis causas comuns em casos de toxoplasmose foram eliminadas durante a pesquisa, como carne bovina, de frango e queijos, entre outros alimentos. No entanto, a investigação continuará sendo realizada”, concluiu o comunicado.

Entenda a toxoplasmose

Toxoplasmose pode ser transmitida da mãe para o feto e, quando não causa óbito, pode provocar outros problemas

Toxoplasmose pode ser transmitida da mãe para o feto e, quando não causa óbito, pode provocar outros problemas

Foto: shutterstock

Conhecida como doença do gato, a toxoplasmose, de acordo com o Ministério da Saúde, é causada por um protozoário e apresenta quadro clínico variado – desde infecção assintomática a manifestações sistêmicas extremamente graves.

A infecção em humanos ocorre por três vias: contato direto com solo, areia e latas de lixo contaminados com fezes de gatos infectados; ingestão de carne crua ou mal cozida infectada (sobretudo carne de porco e de carneiro), e infecção transplacentária durante a gravidez.

A doença não pode ser transmitida de humano para humano, com exceção das infecções intrauterinas. De acordo com a pasta, cerca de 40% dos fetos de mães que adquiriram a doença durante a gestação são infectados.

Leia também:Toxoplasmose não é perigosa apenas para grávidas; veja consequências da doença

A orientação das autoridades para se prevenir casos de toxoplasmose no Rio Grande do Sul e em qualquer estado brasileiro é evitar o uso de produtos animais crus ou mal cozidos, eliminar as fezes de gatos infectados em lixo seguro, proteger as caixas de areia, lavar as mãos após manipular carne crua ou terra contaminada e evitar o contato de grávidas com gatos.

*Com informações da Agência Brasil

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