A crise no abastecimento de água que atinge municípios de norte a sul do Rio Grande do Sul não é um episódio isolado, tampouco pode ser reduzida a disputas políticas locais. Trata-se de um problema estrutural, antigo, previsível — e que agora cobra seu preço de forma escancarada. A Corsan, responsável historicamente pelo abastecimento em grande parte do Estado, enfrenta um passivo que não nasceu ontem. Décadas de investimentos insuficientes, redes antigas, perdas técnicas elevadas, fragilidade operacional e planejamento aquém do necessário compõem um cenário que não se resolve com notas oficiais nem com a transferência de culpa. Nos últimos meses, a falta de água deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano de diversas cidades gaúchas. De municípios maiores a pequenos centros do interior, o roteiro se repete: interrupções frequentes, demora na normalização e comunicação falha com a população. O problema não respeita fronteiras regionais e justamente por isso revela sua natureza sistêmica.
Em Três Passos, parcela da população tem direcionado críticas à administração municipal, como se a gestão local fosse responsável direta pelo colapso no fornecimento. É compreensível que, diante da torneira seca, o cidadão cobre quem está mais próximo. No entanto, é preciso honestidade intelectual para reconhecer as competências institucionais. O município não opera o sistema de captação, tratamento e distribuição. Não controla os investimentos estruturais. Não define políticas tarifárias. Atribuir-lhe a responsabilidade integral é, no mínimo, simplificar demais uma equação complexa. Isso não significa que prefeitos devam cruzar os braços. Cabe às administrações municipais cobrar eficiência, exigir cronogramas claros, pressionar por investimentos e agir como representantes legítimos da população. Mas transformar um problema estadual em munição para disputa política local apenas obscurece o debate. O que está em jogo vai além da inconveniência temporária. Água é infraestrutura básica, é saúde pública, é dignidade. Quando o sistema falha de forma recorrente, evidencia-se a necessidade de um modelo que priorize eficiência, metas claras, transparência e responsabilidade contratual. O debate que precisa ser feito no Rio Grande do Sul não é “de quem é a culpa” em cada cidade, mas qual modelo de gestão garante investimento contínuo, redução de perdas, modernização da rede e previsibilidade no abastecimento. Enquanto isso não for enfrentado com seriedade, novas estiagens, novos picos de consumo ou novas falhas técnicas continuarão produzindo o mesmo resultado: torneiras secas e discursos inflamados.
Em Três Passos, é importante registrar: a administração municipal tem cobrado reiteradas vezes providências da Corsan, utilizando todos os canais possíveis. As demandas foram levadas a reuniões na capital, com a direção da companhia, e também tratadas em encontros realizados no próprio município. A cobrança existe, é pública e é permanente. O que falta, até aqui, é a solução estrutural que a população espera e merece.
Por Carton Cardoso





