Comportamento
Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Rúbia Machado é casada com Getúlio e namora Sharon. Assim como seus parceiros, ela está entre os 53% de brasileiros que têm ou já tiveram pelo menos uma relação não monogâmica, segundo estudo realizado em 2025 pela agência Dive Marketing, sob encomenda de um aplicativo de paquera. No caso da caxiense de 36 anos, virar “NM” vai além de simplesmente aderir a um modelo de relacionamento: amar quantas pessoas quiser é, para ela, um ato político.

— A não monogamia é a política diária de eu poder fazer o que quiser com o meu corpo, na hora que quiser. Como mulher negra, dentro de mim sempre tive vivências diferentes do padrão social guiado pela heteronormatividade, e a não monogamia me trouxe outro ponto de visão, que é a de ter um corpo negro e lutar pelo direito de decidir com quem deitar e com quem não deitar  — define a moradora de São Luiz da 6ª Légua,  que trabalha como assessora política na Câmara Municipal.

Rúbia e Getúlio Lavall, 38, são casados há 10 anos e vivem uma relação não monogâmica há sete. Já foram um trisal — quando Rúbia teve um terceiro parceiro fixo — e, atualmente, cada um tem uma namorada (Sharon, namorada de Rúbia, mora em Porto Alegre). Mãe de dois filhos, ela conta que já foi chamada à escola onde estuda a filha Giovanna, de 9 anos, após a menina comentar sobre a dinâmica familiar:Play Video

— Quiseram me alertar, pois achavam que ela estava inventando uma história de que a mãe e o pai eram casados e a mãe tinha uma namorada. Tive de explicar que ela estava apenas descrevendo a própria família

Ao mesmo tempo em que mais pessoas se reconhecem como não monogâmicas no Brasil, cresce também o interesse pelo tema. Em 2023, o país foi o terceiro no mundo com mais buscas pelo termo “não monogamia” no Google, atrás apenas de Canadá e Austrália. Paralelamente, ganha força o movimento que busca ampliar e qualificar o debate sobre o que é — e, não menos importante, o que não é — a não monogamia.

— A primeira coisa que as pessoas querem saber é: com quantos tu transa? E não é sobre isso. Transar com mais pessoas pode ser uma consequência, mas a não monogamia trata da liberdade de abrir a mente para outros modos de viver, reconhecendo que sou livre para amar quantas pessoas quiser. Infelizmente, quando olhamos para os índices crescentes de feminicídio no Brasil, vemos que um dos fatores é justamente o avanço da liberdade das mulheres sobre seus próprios corpos — defende Rúbia.

Respeito aos sentimentos e à individualidade é o pilar da NM

Cyntia Maria / Divulgação
Patrícia Gouvêa, moradora de Bento Gonçalves, se especializou no atendimento a pessoas não monogâmicas em seu consultório de psicologiaCyntia Maria / Divulgação

Paulista radicada em Bento Gonçalves, Patrícia Gouvêa, 35, é não monogâmica há três anos. Além da vivência, e até mesmo antes de fazer sua escolha, debruçou-se a ler e estudar tudo sobre o assunto. 

— Conheci a não monogamia por meio de uma pessoa com quem comecei a me relacionar. Essa pessoa já era não monogâmica, enquanto eu vinha de uma perspectiva totalmente monogâmica, e olhar para esse lugar quando já está apaixonada é mais difícil. Mas fui atrás da minha curiosidade. Especialmente por já ter vivido relações conturbadas e estar buscando entender melhor autonomia e liberdade, além de estudar vertentes ligadas ao feminismo — conta.

Psicóloga clínica, Patrícia também direcionou sua atuação profissional ao atendimento de pessoas não monogâmicas.

— É comum pacientes chegarem em crise conjugal, percebendo que a monogamia fechada não faz mais sentido, mas ainda presos a padrões sociais e familiares. A terapia ajuda a pessoa a olhar para seus sentimentos e sua individualidade, avaliando o que faz sentido para sua vida — observa.

Filiada à Associação Nacional de Coletivos e Pessoas Não Monogâmicas (Anamos) e ao coletivo Soluções Não Monogâmicas, Patrícia destaca o respeito às necessidades individuais como um dos pilares da não monogamia — sustentado pelo diálogo.

— O diálogo é fundamental para entender o que faz sentido para cada parte, respeitando a individualidade. O cerne da não monogamia é olhar para si, mas também para o outro. Minha relação, por exemplo, é hierarquizada: moro com meu parceiro e, a partir disso, dialogamos sobre como se dará a dinâmica com uma terceira pessoa em casa, seja em uma relação comigo ou com ambos.

Grupo criado na Capital ganha versão serrana

No último sábado (18), 11 pessoas se reuniram na Do Arco da Velha Livraria e Café para um bate-papo sobre não monogamia em Caxias do Sul. A iniciativa partiu da caxiense Priscila De Carli, 41, e da psicóloga Patrícia Gouvêa, que mediou a conversa.

Ambas frequentam o grupo Papo Não Mono RS, criado há dois anos em Porto Alegre, que promove encontros presenciais sobre temas ligados ao estilo de vida e ao movimento, sob perspectivas sociais e políticas.

Após o primeiro encontro na Serra, a ideia é tornar as reuniões mais frequentes e ampliar a participação.

— Dentro da minha experiência, tanto o grupo de WhatsApp quanto os encontros na Capital foram essenciais para compreender a não monogamia, porque cada pessoa traz uma vivência. Sabendo que havia interessados que não conseguiam se deslocar, surgiu a ideia de trazer o encontro para a Serra. Essa primeira edição foi muito acolhedora, e agora queremos ampliar essa rede — destaca Priscila.

Para Rúbia Machado, citada no início da reportagem e que pretende participar dos próximos encontros, falar abertamente sobre não monogamia é fundamental para que mais pessoas se sintam seguras e acolhidas em sua escolha.

Ao lembrar da própria trajetória, ela cita a reação do pai ao saber de sua decisão:

— Do alto dos seus mais de 60 anos, meu pai teve a reação mais bonita que já vi. Ele disse: “filha, eu sempre vou amar a ti e a quantas pessoas tu amares”.

Premium Illustration / adobe.stock.com
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BREVE DICIONÁRIO NÃO MONOGÂMICO

Em parceria com a colega psicóloga e também não monogâmica Júlia Ferreira Guedes, Patrícia Gouvêa elaborou para as redes sociais um post em que explica o significado de alguns termos comumente utilizados em conversas sobre não monogamia. Confira:

Não Monogamia
Termo “guarda-chuva” que se refere a um movimento social e político que questiona as formas como nos relacionamos afetiva, sexual e romanticamente, propondo reflexões sobre padrões de gênero, sexualidade e os estereótipos relacionais pré-estabelecidos.

Afeto
Afetos são pessoas com quem temos vínculos importantes – de carinho, cuidado e conexão – que podem (ou não) envolver romance ou sexualidade. Nem sempre se trata de um relacionamento amoroso: amigos, colegas, familiares e outras pessoas queridas também podem ser nossos afetos. Cada pessoa entende e vive o afeto de um jeito.

Compersão
É o sentimento de alegria, satisfação ou contentamento ao ver uma pessoa com quem você se relaciona feliz em outra relação, seja ela afetiva, sexual ou romântica. Diferente do ciúme, que envolve medo do abandono ou insegurança, a compersão está ligada ao bem-estar e se alegrar felicidade do outro, mesmo quando essa felicidade surge em outro vínculo afetivo.

Energia de Nova Relação (ENR)
Popularmente associada à “paixão”, a energia de nova relação é compreendida, em contextos não monogâmicos, de forma mais ampla e menos imediatista. Ela considera não apenas o entusiasmo e as mudanças que uma nova conexão traz para quem a vivencia, mas também o impacto que isso pode gerar nas pessoas envolvidas nessa rede de relações.

Pioneiro

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