Comportamento
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Estado que tem o chimarrão como símbolo cultural, o Rio Grande do Sul apresenta a maior incidência de câncer de esôfago no Brasil, conforme dados mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Apesar da preocupação com o consumo da bebida em jejum, especialista consultado por Zero Hora explica que o principal risco está na temperatura da água e não no horário em que o mate é tomado.

O consumo habitual de bebidas muito quentes, como chás e infusões, é um dos fatores de risco associados ao carcinoma espinocelular do esôfago, além do tabagismo, do consumo de álcool e do tipo de alimentação.

A pesquisa de 2026 do Inca aponta que no Rio Grande do Sul, onde o chimarrão costuma ser consumido diariamente e em alta temperatura, há 10,09 casos de câncer de esôfago por 100 mil homens e 2,77 casos por 100 mil mulheres. Então, o mate faz mal?

Não, sozinho o chimarrão não é um vilão. Segundo o Instituto Escola do Chimarrão, a erva-mate contém grande parte dos nutrientes necessários ao organismo humano. Ainda de acordo com o projeto criado em Venâncio Aires, o mate traz benefícios como:

  • Estímulo físico e mental
  • Auxílio na digestão e controle de peso
  • Auxílio na regulação das funções cardíacas e respiratórias, agindo como um vasodilatador
  • Auxílio no combate ao colesterol ruim (LDL), graças à ação antioxidante

Chimarrão de estômago vazio

Não há diferença entre consumir o chimarrão de estômago vazio ou após as refeições, garante o médico gastroenterologista Júlio Carlos Pereira Lima, professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). O principal risco do chimarrão reside na temperatura excessiva da água, que pode causar danos graves ao esôfago e à cavidade oral.

— Isso é um dos problemas do uso crônico, mas não é tomar uma vez um chimarrão quente que vai dar câncer de esôfago. Evidente. Isso é um hábito da vida inteira — reforça o médico, que também é chefe do Serviço de Endoscopia da Santa Casa de Porto Alegre.

Já para os idosos, o consumo de chimarrão em temperatura elevada apresenta riscos adicionais devido às mudanças fisiológicas naturais, como o enfraquecimento da musculatura do tubo digestivo e o funcionamento mais lento do esôfago. Essas condições fazem com que o líquido quente fique mais tempo em contato com a mucosa, o que, segundo Pereira Lima, aumenta a chance de dor ao engolir e eleva o risco de câncer.

Em casos de doenças raras em que o esôfago não se movimenta corretamente, como a acalasia, a alta temperatura da água faz com que o órgão se contraia, provocando dor e piora dos sintomas. Além disso, o líquido quente pode causar lesões momentâneas na laringe, o que pode prejudicar temporariamente quem trabalha com a voz.

Problemas digestivos

Para os amantes do amargo, a boa notícia é que condições gástricas não são agravadas pelo hábito de consumir a bebida, seja com o estômago vazio ou não. O chimarrão não causa problemas para quem tem gastrite ou úlcera, explica o médico:

— Mesmo quem tem refluxo, azia, o efeito do chimarrão é como qualquer outro chá. Por exemplo, se a pessoa tomar um suco de laranja, a chance de ela ter refluxo é a mesma, a temperatura não influencia nisso. O que influencia é a quantidade de líquido. Como se toma chimarrão aos poucos, dificilmente alguém vai ter azia por conta dele.

O especialista ainda pontua que o mate gaúcho não é considerado “refluxogênico”, ou seja, não provoca azia por ter um esvaziamento gástrico rápido. A bebida também não lesa o estômago, pois a temperatura do líquido esfria antes de chegar ao órgão.

Por isso, o efeito da erva-mate no sistema digestivo de pessoas saudáveis, além do risco térmico no esôfago, costuma se limitar a soltar o intestino, especialmente se consumido em jejum.

Por tradição, gaúchos costumam consumir o mate com água em alta temperatura.Debora/stock.adobe.com

Temperatura ideal

Apesar de os gaúchos terem a tradição de consumir o chimarrão com temperatura na casa dos 80°C, a orientação do profissional é que, para evitar riscos, a bebida seja consumida próxima aos 60°C.

— Não precisa ser como o (mate) paraguaio, que eu acho ruim pessoalmente em termos de gosto, mas o meio-termo, como fazem os uruguaios e argentinos, em 60°C. A temperatura do café seria o ideal — finaliza.

Gaúcha ZH

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