Curiosidades
Foto: Alessandra Hoppen / Agencia RBS

Bebida símbolo do Rio Grande do Sul, o chimarrão tem seu próprio código social mantido fielmente por alguns gaúchos. A direção correta a seguir na roda de mate e a mão certa ao devolver o chimarrão são alguns dos rituais seguidos no Estado e que, se feitos de forma errada, podem ser interpretados por alguns como falta de educação.

Para sanar todas as dúvidas, GZH Passo Fundo entrevistou o ex-peão Farroupilha do Rio Grande do Sul, Ramiro Grethe Bregles, poeta e autor do livro Carijada, de 2025. Abaixo, listamos sete principais  curiosidades que todo mateador “raiz” precisa saber.

Mas, antes de preparar o chimarrão e entender os costumes, a nomenclatura também merece atenção. As expressões variam conforme a região, mas têm origem dos povos indígenas e das influências culturais ao longo do tempo. Veja abaixo: 

1. Primeiro, o “mate dos pintos”

Um dos hábitos mais tradicionais começa já no preparo. O primeiro gole do chimarrão, muitas vezes, não é sorvido. Ramiro relembra que o aprendizado foi ainda ainda na infância, observando a avó cevar o mate e cuspir o primeiro conteúdo para fora. Play Video

O costume, segundo ele, tem raízes históricas. Remonta às Missões Jesuíticas e, no meio rural, também ficou conhecido como “mate dos pintos”, já que a erva descartada acabava sendo consumida pelas aves no terreiro.

2. O segredo está no ouvido

Mais do que seguir uma receita, fazer um bom chimarrão exige sensibilidade. A temperatura da água, por exemplo, é um dos pontos mais importantes durante o preparo.

— É preciso respeitar o chiar da chaleira. O verdadeiro “cevador” tem o ouvido aguçado e já sabe quando a água está boa — explica Ramiro.

Segundo ele, esse conhecimento vem com a prática diária, repetida dentro de casa e também nas rodas de mate em família e nos CTGs.

3. Quando o mate “entope”

Quem nunca teve dificuldade de tomar um mate porque a bomba estava “entupida”? Esse é um dos desafios mais comuns para um bom mateador. Com a experiência adquirida ao longo dos anos — inclusive em provas tradicionalistas como o Entrevero Cultural de Peões — Ramiro explica que existem formas simples de resolver o problema: 

— Retirar um pouco da erva do fundo da cuia, o que é chamado de “bostear o mate”, ou dar leves batidas na cuia são estratégias que ajudam a restabelecer o fluxo e continuar o ritual.

Leo Munhoz / Agencia RBS
“Morro” ou “topete” é a parte alta da erva.Leo Munhoz / Agencia RBS

4. O sentido da roda

circulação da cuia dentro da roda de chimarrão segue regras bem definidas. O chimarrão deve ser passado sempre pelo lado direito, com a mão direita, e com a bomba virada para quem vai receber. 

— Entregar com a mão esquerda é considerado falta de educação.  Quando não há outra opção, a tradição orienta que se peça licença com a expressão “desculpe a mão”, geralmente respondida com “é a mesma do coração” — conta Ramiro.

5. Cuidado com o “muito obrigado”

Outro ponto que chama a atenção de quem não está acostumado é o uso da expressão “muito obrigado” dentro da roda. Diferente do que se imagina, agradecer o mate pode ser um sinal claro de que a pessoa não deseja mais participar da roda.

— Essa regra me faz lembrar de certa vez em que mateava em Passo Fundo, na casa do amigo e professor Paulo “Matrogrosso”. Não havia agradecido o mate ainda, e quando chegou minha vez novamente eu disse que não queria mais. Seu Paulo ficou mais quente que o mate! E exigiu que eu tomasse aquela cuia, pois ele já havia servido — relembra.

6. Figuras da roda de mate

O chimarrão também tem personagens próprios, que surgem conforme a dinâmica da roda. Um dos mais conhecidos é o chamado “pealador de mate”.

Trata-se da pessoa que chega depois, se senta à direita de quem será o próximo a tomar e acaba entrando na vez, interrompendo a sequência. A situação é tão comum que deu origem à expressão “pealar o mate”, incorporada ao vocabulário gaúcho.

Tadeu Vilani / Agência RBS
Chimarrão deve ser passado sempre pelo lado direito.Tadeu Vilani / Agência RBS

7. Troca de sinais por meio do mate

Além dos gestos e regras, o chimarrão também transmite mensagens por meio dos ingredientes adicionados à erva, conhecidos como “jujos”.

Entre os significados mais difundidos, o mate com canela representa um gesto de afeto: “só penso em ti”. Enquanto isso, o mate com mel pode indicar intenção de compromisso, como “quero casar contigo”. Já o mate com casca de laranja sugere um convite: “vem buscar-me”.

Nem todas as mensagens, porém, são positivas. O mate com sal, por exemplo, significa rejeição, e o mate frio pode indicar desprezo.

A tradição também atribui nomes específicos a diferentes formas de preparo e momentos de consumo do chimarrão:

— O chamado “mate do estribo” é aquele servido na despedida, quando a visita já está de saída. Já o “mate de china pobre” é caracterizado pela pouca quantidade de erva na cuia. Há ainda o “mate tamanqueado”, quando a chaleira permanece no fogão e o cevador precisa se deslocar até a roda para servir, batendo os tamancos no caminho.

Todas essas histórias e significados fazem parte do universo cultural do chimarrão e inspiraram Ramiro a reunir ensinamentos e versos em livro recentemente publicado.

— O amor pelos poemas, pelo verso e pela rima, bem como, pelo chimarrão, já que sou natural de Palmeira das Missões, a terra da melhor matriz genética de erva-mate do mundo, me fizeram ser um entusiasta do assunto — conclui.

Gaúcha ZH

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