Lula deve terminar seu 12º ano de governo, talvez o último, com o Brasil no posto de maior superpotência agrícola do mundo. Foi o que projetou o Financial Times, apontando os Estados Unidos a um passo de perder a liderança depois de mais de um século.
Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura, fluente em mandarim, diz que o quadro já é de empate neste início do quarto trimestre de 2026. Em commodities, produtos que são a base da economia global, o Brasil lidera em soja, café, algodão, suco de laranja e carnes.
Foi no segundo mandato de Lula que a China se estabeleceu como principal parceiro comercial do Brasil. Mas quem deu a arrancada final para o país ultrapassar os EUA foi Donald Trump. “A China foi fundamental para que o Brasil assumisse a posição de grande exportador global de commotidites agrícolas”, diz Wachholz.
“E isso se intensificou nos últimos anos. Os EUA ocupavam a posição de principal exportador agrícola para a China até 2017, quando foi lançada a primeira guerra comercial de Trump.” Houve quebra de confiança na relação sino-americana, fazendo crescer a demanda junto ao Brasil. “É fato também que a gente conseguiu atender a essa demanda, o que não era algo óbvio.”
Em visita a Pequim, Silvia Massruhá, presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), vinculada ao Ministério da Agricultura, comentou por quê. Citou, por exemplo, como a soja foi adaptada ao Centro-Oeste, alcançando produção em massa.
“Em 53 anos, nós passamos de importador para o grande produtor e exportador de alimentos graças à ciência e tecnologia”, diz ela. “O segredo da Embrapa é que ela gera tecnologia, que é um dos três pilares, junto com capacitação e políticas públicas associadas. Esse tripé fez chegar onde a gente chegou.”
Meio século atrás, o Brasil não pensava em exportar, mas em garantir segurança alimentar. “Só que, com a diversidade de solo e clima que a gente tem e a adaptação que a gente fez, o país começou a exportar”, diz Massruhá. E então surgiu a China, “a grande demandante”.
Olhando para a frente, esta mesma China não quer ser tão dependente do Brasil. O que pode ser bom também para o Brasil, argumenta Wachholz. “Ninguém quer depender de um só fornecedor, nem depender de um só comprador.”
Os agricultores chineses querem agora, por exemplo, elevar a produtividade da soja. Como não têm condições de aumentar a área plantada ou água em quantidade suficiente, estão dispostos a usar sementes geneticamente modificadas. “Faz sentido, EUA e Brasil têm produtividade bastante acima da chinesa justamente por fazerem uso dessas sementes”, diz a especialista.
Na mesma direção, as autoridades chinesas querem diminuir a proporção de soja na ração animal. “A proteína animal que é consumida dentro da China precisa dessa soja, que é o que o Brasil exporta: soja como ração”, explica. “Na medida em que consigam reduzir esse percentual, podem depender um pouco menos da soja.”
Essas e outras medidas de incremento dos componentes industriais na produção agrícola, segundo Wachholz, devem ser bem-sucedidas. “A gente viu acontecer antes. Deu certo em várias cadeias, como carros elétricos. Mas o impacto para o Brasil não será dramático.” A projeção é que a redução na demanda de soja, por exemplo, se limite a 2,4% ao ano até 2035.
Também visando não depender tanto do mercado chinês, o Brasil de Lula passou a priorizar acordos comerciais, via Mercosul, com União Europeia e outros. Massruhá vai além e afirma que o Brasil deve trabalhar cada vez mais em parceria também com a China, para abrir outros mercados.
“Não adianta ignorar a China”, diz. “Ela está entrando na África, aliás, já está lá há bastante tempo. E a África demanda muito do Brasil. Não vejo a China como concorrente. Essas trocas são ganha-ganha. Quando você leva a tecnologia brasileira para a África, está validando nossas tecnologias.”
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Alerta que, a exemplo do que aconteceu meio século atrás e levou à criação da Embrapa, o país e o agro “têm que discutir muito mais o planejamento estratégico”, para o próximo meio século.
UOL






