Economia
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Com a inadimplência em níveis recordes no país, a população que tem contas em atraso busca alternativas para sair da situação. Uma pesquisa da Serasa revelou que 40% dos brasileiros que possuem investimentos já precisaram resgatar aplicações para pagar dívidas.

Desses, 52% apontaram a necessidade imediata de dinheiro como principal motivo para essa decisão. Para o economista e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Rafael Disconzi, o cenário indica um ambiente de maior pressão financeira, em que o aumento do custo de vida, o endividamento elevado e os juros altos comprometem a capacidade de pagamento e reduzem a formação de poupança.

Precisar recorrer às reservas reforça a importância de outros passos da organização financeira. Além do equilíbrio das contas, é importante ter um caixa de emergência e investimentos de longo prazo.

Especialista em Educação Financeira da Serasa, Aline Vieira diz que o dado mostra dois movimentos importantes. Primeiro, que as pessoas estão se organizando. Segundo, que o descompasso nas finanças ainda gera urgência por recursos extras.

— Por um lado, é positivo. Vemos que muitas pessoas estão utilizando os recursos que elas já possuem para evitar que as dívidas aumentem e comprometam ainda mais a sua saúde financeira. Por outro, esse número também revela que muitas famílias ainda possuem pouca folga no orçamento para enfrentar imprevistos sem recorrer aos investimentos — diz Aline.

Entenda a diferença

  • Endividado: é qualquer pessoa com contas a pagar, como parcelas de cartão de crédito, financiamentos ou empréstimos
  • Inadimplente: é quem tem dívidas em atraso, ou seja, que não conseguiu pagar o valor devido no prazo

Quando utilizar os investimentos

Em muitos casos, utilizar investimento para pagar dívidas pode ser uma decisão financeira inteligente. Isso acontece quando a dívida tem juros maiores do que o rendimento do investimento, como costuma acontecer com o cartão de crédito e o cheque especial. Mas a decisão deve ser analisada com cuidado.

Atenta à saúde financeira das contas da casa, a empreendedora Ana Paula Lopes, 43 anos, optou por resgatar dinheiro de aplicações para sanar dívidas. Numa dessas situações, ela utilizou os recursos de reserva para quitar o financiamento do carro, cujas parcelas estavam pesando no orçamento. O cálculo foi uma decisão estratégica da família para aliviar os gastos do mês e evitar cair no cheque especial. Os recursos vieram de aplicações como CDB, Previdência e fundos.

— Na ponta do lápis, não cabe ter o dinheiro guardado e pagar juros ao banco, porque os juros que tu recebes (em rendimentos) não cobrem. Por mais que a gente precise ter uma reserva, ela é justamente para uma emergência. Então, acabou que se usou em mais de uma situação, nessa lógica de não ficar pagando juros — diz a empreendedora.

Mateus Bruxel / Agencia RBS
Ana Paula registra contas da casa na ponta da caneta para evitar dívidas.Mateus Bruxel / Agencia RBS

O economista e professor da PUCRS Rafael Disconzi comenta duas situações:

Quando faz sentido resgatar investimentos para quitar dívidas

Em geral, quando o custo da dívida (juros do cartão de crédito, cheque especial ou crédito rotativo, por exemplo) é significativamente superior ao rendimento das aplicações financeiras. Nesses casos, a redução do passivo tende a representar uma decisão financeiramente racional.

Quando essa decisão exige cautela

É importante avaliar a incidência de imposto de renda, eventuais perdas de rentabilidade, liquidez dos ativos e a necessidade de manter uma reserva de emergência. Nem todo investimento deve ser resgatado sem uma análise do custo-benefício.

Mesmo que seja uma estratégia saudável para sanar dívidas caras, quando se torna recorrente, o uso dos investimentos indica perda da capacidade de acumular patrimônio e maior vulnerabilidade financeira das famílias, pontua Disconzi.

Por que buscar investir

Os investimentos são fundamentais para alcançar objetivos de longo prazo. Mas construir uma reserva de emergência é o que ajuda a proteger esse patrimônio quando surgem situações inesperadas, por exemplo.

A especialista da Serasa lembra que investir vai muito além de buscar rentabilidade. Fazer investimentos é uma forma de construir um patrimônio, de proteger o poder de compra e se preparar para objetivos e sonhos futuros.

Além disso, investir incentiva hábitos de planejamento e organização financeira, trazendo segurança para tomar decisões mais sustentáveis e benéficas para o bolso e para a vida financeira do consumidor.

— Para ter uma reserva, tem que abdicar de algumas coisas, e às vezes isso não é possível. Eu também amo viajar, amo ter momentos em família, mas ter a reserva me deixa mais tranquila, me deixa respirar — diz a empreendedora Ana Paula Lopes.

Importância dos investimentos

Dos ouvidos na pesquisa da Serasa, 43% afirmaram que a situação financeira melhorou depois que começaram a investir. Outros 76% disseram que gostariam de aprender mais sobre investimentos.

Se antes o hábito de guardar e aplicar existia somente entre as pessoas com alta renda, a educação financeira e, consequentemente, o planejamento para uso do dinheiro se popularizaram nos últimos anos. O entrave é que muitas vezes falta o recurso para ser aplicado.

O alto custo de vida é um dos principais empecilhos listados pelos brasileiros. Ou seja, muitos ainda não investem porque não têm uma sobra de dinheiro no final do mês, e não porque não querem destinar esse valor para os investimentos.

— O investimento deixou de ser uma prática restrita a pessoas de maior renda. Hoje, cada vez mais brasileiros estão dando os primeiros passos para organizar sua vida financeira e começar a investir. Ao mesmo tempo, a renda disponível ainda é um fator decisivo para muitas das pessoas entrevistadas — diz Aline.

Mulheres ainda têm menos reservas

A construção de uma reserva de emergência é um dos principais pilares da educação financeira, mas ainda é um desafio, sobretudo entre mulheres.

Outra pesquisa da Serasa, esta com recorte de gênero, mostra que 81% das mulheres não possuem reserva de emergência — 12 pontos percentuais acima dos homens. Além disso, apenas 17% delas conseguem pagar todas as contas e ainda guardar dinheiro. Entre os homens, esse índice chega a 29%.

Ainda conforme a pesquisa, controlar gastos nem sempre é suficiente para cobrir despesas. A renda é considerada insuficiente e um obstáculo para 30,3% das mulheres. Para os homens, o percentual é de 21,5%.

Gaúcha ZH

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