Saúde
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Com a pandemia, o uso de máscara, antes restrito a ambientes hospitalares, tornou-se obrigatório, essencial para salvar vidas e combater a propagação da Covid-19. Mais de um ano e meio depois das primeiras contaminações e a pandemia em aparente controle, a máscara segue importante, apontam especialistas. Mesmo que países como Estados Unidos e Argentina tenham flexibilizado a obrigação do uso, por aqui a máscara deve seguir presente pelo menos até o ano que vem.

Na previsão mais otimista do médico epidemiologista da prefeitura, Marcos Lobato, a máscara deixará de ser um item cotidiano apenas a partir do fim do primeiro trimestre do ano que vem. A flexibilização da obrigatoriedade do equipamento deve ser ligada à imunização de toda a população com as duas doses ou a dose única. Em Santa Maria, o índice de imunizados com segunda dose ou dose única é de 47% em relação ao total da população. Por enquanto, podem ser vacinadas apenas pessoas acima de 12 anos – a vacinação de adolescentes começa neste sábado em Santa Maria.

A desobrigação do uso da máscara facilitaria a transmissão do vírus em um cenário de propagação da variante Delta, mais transmissível.

– Se começarmos a deixar pessoas vacinadas e não vacinadas circularem livremente sem máscaras, tem uma chance muito maior de ter uma mutação e surgir uma variante capaz de enganar o sistema imunológico e resistir às vacinas – afirma Lobato.

SEM MÁSCARA, INDICADORES PODEM PIORAR

Em um cenário hipotético, onde há flexibilização do uso da máscara nas condições atuais, Lobato tece um cenário de aumento de casos, que leva ao crescimento das internações e a ocorrência de mais mortes. É o que se observa em países que desobrigaram o uso do equipamento:

– Nos Estados Unidos, muitas pessoas não buscam a vacinação. Com a entrada da variante Delta, acontece o ressurgimento de contaminação e mortes. Porque, esses países, em menor proporção em Israel e Reino Unido, também, tinham atingido índices baixos de mortalidade e aboliram algumas medidas não farmacológicas, como o uso de máscara. Eles passaram a aglomerar-se novamente e abrir mão disso. E aí se vê, com a Delta, casos novos. O que é mais interessante, e reforça o papel da vacina, é que, nos Estados Unidos, as mortes atuais estão se concentrando em mais de 90% nas pessoas que não foram vacinadas – explica o epidemiologista Paulo Petry, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A infectologista Andréa Dal Bó, membro da Sociedade Riograndense de Infectologia (SRGI), compara a realidade de Alemanha e Estados Unidos para explicar a importância da máscara. Ambos países têm um percentual de vacinados semelhante, mas a variante Delta teve um impacto maior em americanos não vacinados ou imunizados com apenas a primeira dose do que em alemães na mesma situação. A diferença, para Andréa, foi o uso da máscara. Os Estados Unidos desobrigou o uso até mesmo em locais fechados, ainda em maio, para vacinados, mas teve que voltar atrás em agosto. Já a Alemanha seguiu com a obrigação do uso.

Conforme Lobato, é justamente a vacinação, aliada ao uso da máscara, que propiciou o controle da pandemia.

– Temos que ter responsabilidade e não fazer apostas com nossa vida e com a vida dos outros. Se não temos certeza que abrir mão da máscara nesse momento pode ter benefícios, e já sabemos que é melhor manter a máscara, por que arriscar? Por que não esperar um pouco mais? Assim, podemos evitar sofrimento e mortes – finaliza Lobato.

MUDANÇA NOS PROTOCOLOS SÓ DEPOIS DA VACINAÇÃO 
Para Andréa Dal Bó, o fim da obrigação da máscara deve estar ligado ao percentual de imunização completa da população.

– Para esse ano, eu acredito que ainda não. Nós nem chegamos a 50% da população com duas doses. Nós precisaríamos ter pelo menos 70% da população com duas doses para poder pensar em algum relaxamento dessas medidas de uso de máscara e distanciamento social – explica.

E a depender da situação das variantes, da média móvel de casos e de mortes, esse percentual terá de ser ainda maior, de 85% ou mais de vacinados. Dal Bó também levanta outra possibilidade: a permanência da máscara no cotidiano, principalmente de pessoas mais vulneráveis, como crianças em idosos, em períodos do ano de maior risco para doenças respiratórias, como o inverno.

E essa opinião vai de encontro ao que comenta o epidemiologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Petry. Mesmo com o controle da pandemia, o vírus não será extinto, e é provável que se torne endêmico, como a gripe.

– A literatura internacional sugere que o coronavírus veio para ficar. Nós não vamos mais nos livrar do Sars-Cov-2, que nem é um vírus novo. Mas vai se tornar uma doença endêmica, perder força em termos de letalidade. Não vamos ver esses números de internados e doentes graves. No Estado, já passamos 34 mil mortes. No Brasil, mais de 584 mil. No mundo, 4,5 milhões de pessoas. São números absurdos. Mas certamente esse impacto vai ser diminuído. A doença endêmica é como a gripe sazonal, vai afetar as pessoas, mas não vai ter a mortalidade que temos nos dias de hoje – elucida.

Ainda há dúvida sobre a frequência com que a vacinação deverá ocorrer. Algumas projeções mostram que a efetividade do sistema imunológico é reduzida entre seis a oito meses após a vacinação. Em comparação, a gripe sazonal atinge em torno de 1 bilhão de pessoas por ano no mundo. A característica de uma doença endêmica é estar presente, mas ter baixa mortalidade e produzir poucos casos graves, além de ser controlada por meio de uma vacinação provavelmente anual, como por exemplo, é o o caso da gripe. (Colaboraram Laura Gomes e Leonardo Catto).

Diário SM