Esportes
Foto : Rafael Ribeiro / CBF

Às vésperas da estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026, uma parcela da população prefere não se envolver com o torneio ou até torcer contra o time comandado por Carlo Ancelotti. Nesta quinta-feira, por exemplo, a atriz Luana Piovani disse em suas redes sociais que não vai assistir à Copa.Play Video

Embora esse não seja um fenômeno novo, a rejeição pela Seleção Brasileira vem crescendo ao longo das últimas edições do torneio. Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha em antecipação ao Mundial revelou que 54% dos brasileiros não têm interesse na Copa de 2026 e que 31% sequer pretendem assistir aos jogos. Esse foi o maior percentual registrado desde o início da série histórica, que começou em 1994.

Segundo o doutor em Educação e especialista em Jornalismo Esportivo Gustavo Bandeira, a queda de popularidade da Seleção se deve a uma série de fatores que vão além do desempenho esportivo.

“Sempre teve esse grupo que não torce ou torce contra, mas isso acabou virando moda recentemente. Antes era mais um intelectualismo meio velho, de quem se sentia superior por torcer contra, que dizia que o “futebol é o ópio do povo””, relata. “Mas era um pessoal meio contra todas as festas mais populares, Carnaval, samba. Hoje são outros motivos. Existe sim um fator político, mas também questões de contexto histórico e social.”

“Penso o futebol como cultura”, explica o doutor em Antropologia Social e especialista em Jornalismo Esportivo Marcelo Noronha. “Para mim, a questão central é a identidade. No Rio Grande do Sul, por exemplo, temos um pertencimento regional muito forte. Quando a Seleção não tinha muitos jogadores da dupla Gre-Nal, a identificação diminuía.”

Uma geração menos conectada com o futebol

Se no século passado o futebol era o passatempo preferido de parte significativa da juventude brasileira, hoje o esporte precisa disputar espaço com videogames, redes sociais, séries e outras formas de entretenimento que são intrínsecas ao dia a dia das novas gerações. A diminuição da relação afetiva com o esporte acaba impactando o interesse dos mais jovens pela Seleção.

“Na minha geração, o sonho era ganhar uma bola. Hoje, o futebol é mediado pela diversão eletrônica, o que muda a relação afetiva. O futebol tornou-se apenas mais um interesse entre tantos outros”, destaca Noronha. “Nos anos 70, 80 e 90, um amistoso da Seleção parava o país.”

Outro fator que afasta as novas gerações é a carência de “superastros” vestindo a “Amarelinha”. “Hoje, com exceção do Neymar, a Seleção não tem um rosto, um superastro”, argumenta Bandeira. “E isso não tem a ver com o mérito esportivo. O Vinícius Júnior, por exemplo, se consagrou na Europa, mas não ocupa esse posto de superastro como Pelé, Garrincha, Ronaldo.”

“Nisso também entra a globalização do futebol. Vemos jovens brasileiros usando camisas da Argentina por causa do Messi ou de times europeus, devido à Champions League. Eles criam essa relação com astros de fora e torcem por eles”, pontua Noronha.

A exportação de jogadores para o futebol internacional também cria um afastamento. Em 2006, 2010, 2018 e 2022, apenas três atletas estavam em times brasileiros. O elenco de 2014 tinha quatro e o de 2026 tem sete. A última vez em que o Brasil teve mais da metade do elenco da Copa no futebol nacional foi em 2002, quando que 12 dos 23 jogadores atuavam no país.

Do outro lado, o fortalecimento dos clubes de futebol brasileiros no cenário internacional também pode ter contribuído para esse interesse menor na Seleção, opina Bandeira. “Até os anos 90, o Brasil tinha cinco Libertadores. Até 2000 mais cinco, e hoje só a gente ganha. Esse crescimento dos clubes no cenário mundial e principalmente no sul-americano faz com que os clubes disputem espaço no coração do torcedor.”

Saudade do “Futebol Raiz”

Se as gerações mais jovens têm dificuldade para se conectar com o futebol de hoje, as gerações mais velhas sentem falta da conexão que tinham com o esporte. “Talvez seja nostalgia da minha parte, mas eu acho que os jogadores da minha época eram melhores que os de hoje”, confessa Bandeira. “Tem vários no Mundial que eu só ouvi falar na convocação.”

“Outra questão é o “estilo brasileiro” de jogar, que ninguém personificou melhor que Ronaldinho Gaúcho”, destaca o pesquisador. “Mas esse estilo não é algo que formalmente exista, é uma série de elementos – como o drible, a brincadeira, o futebol arte – que as pessoas acabam associando, no seu imaginário, com a Seleção. Quando não veem isso, surge um distanciamento.”

Para Noronha, a questão com os mais velhos, principalmente os homens mais velhos, é outra. “Antigamente permitia-se beber no estádio e havia um ambiente de polêmica e até violência naturalizada. Houve também um processo de conscientização que proibiu expressões machistas e homofóbicas comuns no passado, o que gera resistência em quem não quer mudar de comportamento”, opina. “Somado a isso, a elitização das arenas e o modelo de sócio-torcedor trocaram o público dos estádios.”

Trauma do 7 a 1

Antes de a bola rolar no Brasil em 2014, a frase de protesto “Não vai ter Copa” circulava pelo país. Manifestantes se faziam ouvir nas ruas e nas redes sociais, pedindo para que o governo priorizasse saúde, transporte e educação em vez de investir na estrutura necessária para a Copa do Mundo.

No entanto, para Gustavo Bandeira, o acontecimento mais impactante para diminuir o valor da Seleção diante dos torcedores veio durante o torneio. “A Copa de 2014 ainda reverbera. O 7 a 1 marcou as gerações”, opina. “Para os mais jovens, o Brasil é um time que perde. Já os mais velhos, que estavam acostumados com vitórias, se frustram muito.”

O fator político

Os protestos de “Não vai ter Copa” de 2013 começaram com uma reivindicação local, contra o aumento do valor da passagem de ônibus em São Paulo, mas logo tomaram o país. Nas ruas, as bandeiras e símbolos de partidos políticos não eram bem-vindos pelos organizadores, sendo substituídos por símbolos nacionais “autorizados”, dentre eles, a camisa da Seleção Brasileira.

Embora neste momento as manifestações não tenham criado um estigma sobre a “Amarelinha”, dada a sequência da Copa do ano seguinte, o mesmo não pode ser dito das manifestações pró-impeachment que tomaram o país em 2016. Neste momento, começa o processo que os antropólogos Simoni Guedes e Edilson da Silva intitulam de “sequestro do verde e amarelo”.

Em 2018 e 2022, as campanhas presidenciais de Jair Bolsonaro aprofundaram a associação da camisa da Seleção com movimentos políticos conservadores e de direita. “O futebol sempre é político”, afirma Marcelo Noronha. “Foi usado em 1970 como ferramenta ideológica e, recentemente, vimos a apropriação dos símbolos da seleção, como a camisa amarela, por grupos de direita.”

“Isso faz com que pessoas com outras ideologias se sintam constrangidas em usar a vestimenta”, explica o sociólogo.

“A questão é que a camisa da Seleção, como a bandeira e hino, não é de um ou outro grupo. Ela é de todos. Torcer a favor ou contra o time da CBF não é o mesmo que torcer a favor ou contra o país”, argumenta Bandeira. “O que nos une são os símbolos nacionais, porque nós podemos discordar de tudo, mas somos brasileiros.”

Importante é a festa

Da mesma forma que existem aqueles que viram as costas para a Seleção durante a Copa, existem aqueles que não costumam acompanhar futebol, mas que vestem todo o seu patriotismo durante o torneio. “O pessoal se junta com os amigos, veste a camisa, torce. Acho que o que a gente não pode fazer é abrir mão da festa e da confraternização”, conclui Bandeira.

Correio do Povo

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