Estado
Foto: André Ávila / Agencia RBS

A falência da Vier Indústria e Comércio do Mate, fundada em 1944 e sediada em Santa Rosa, pegou muitos gaúchos de surpresa. A empresa, conhecida por décadas de atuação no mercado da erva-mate, acumulava dívidas de quase R$ 50 milhões e vinha enfrentando dificuldades desde 2021, quando ingressou com pedido de recuperação judicial.

O desfecho, decretado pela Justiça, é mais um reflexo da crise que afeta o setor ervateiro gaúcho, marcada pela queda no consumo e pelos altos custos de produção. Segundo o Sindicato da Indústria do Mate no Rio Grande do Sul (Sindimate), o cenário é preocupante, mas também revela novas oportunidades de mercado.

Consumo do chimarrão em queda

Para o presidente do Sindimate, Álvaro Pompermayer, a retração do consumo é resultado direto do período pós-pandemia. A tradição de compartilhar a cuia foi interrompida pelas restrições sanitárias e ainda não voltou completamente ao ritmo anterior.

O consumo caiu de forma considerável. Era de 11 quilos ao ano per capita e passou para nove. São vários os fatores, mas um deles é a restrição de compartilhamento da bebida. Fora as mudanças de consumo em si, mesmo sendo um produto barato. O quilo da erva-mate rende muito mais do que o litro do refrigerante, destacou Pompermayer.

Além do consumo interno menor, produtores e indústrias enfrentam altos custos operacionais e falta de matéria-prima, agravados por questões de saúde dos sócios da Vier, citadas como um dos motivos para o pedido de autofalência.

Exportação cresce e traz esperança

Apesar das dificuldades, o setor vê com otimismo o avanço da exportação de erva-mate. Países do Oriente Médio e da Ásia, como Síria, Líbia e Paquistão, têm aumentado o consumo da planta, alcançando volumes equivalentes ao do Uruguai, tradicional comprador da erva brasileira.

O momento é de dificuldade, mas eu aposto mais na recuperação da erva-mate pela visão do consumidor. O tererê está em alta, por exemplo, e muitos países estão buscando a nossa erva-mate, explica o dirigente.

Pompermayer destaca ainda o interesse de grandes multinacionais, como a Coca-Cola, que utiliza a erva-mate gaúcha na produção de chás prontos e desidratados. Esse movimento pode abrir novas portas e consolidar o produto como matéria-prima de valor global.

Produção concentrada no Alto Taquari

Árvore-símbolo do Rio Grande do Sul, a erva-mate (Ilex paraguariensis) é cultivada principalmente em áreas de Mata Atlântica e altitude elevada, o que exclui boa parte do bioma Pampa.

Os municípios de Ilópolis, Arvorezinha e Anta Gorda, no Alto Taquari, lideram a produção no Estado. Outras regiões importantes estão ao norte, em cidades como Palmeira das Missões, Áurea, Viadutos e Barão de Cotegipe.

De acordo com a Radiografia Agropecuária Gaúcha, o cultivo da erva-mate está presente em 173 municípios, ocupando 34 mil hectares. São cerca de 170 estabelecimentos beneficiadores e 240 indústrias em operação no Estado, responsáveis por 120 mil toneladas anuais de erva seca.

Costumo dizer que, para o produtor, é o único produto agrícola que pode ser colhido nos 12 meses do ano. Por isso, ele pode escolher as melhores janelas de preço, completa Pompermayer.

Paraná lidera, mas RS mantém tradição

Paraná segue na liderança da produção nacional, seguido pelo Rio Grande do SulSanta Catarina e Mato Grosso. Mesmo com a crise, o solo gaúcho segue sendo referência em qualidade e tradição, mantendo viva a cultura do chimarrão, símbolo de hospitalidade e identidade do povo sulista.

Municípios com maior produção de erva-mate no RS:

  • Ilópolis
  • Arvorezinha
  • Anta Gorda
  • Palmeira das Missões
  • Fontoura Xavier
  • Putinga
  • Itapuca
  • Áurea
  • Viadutos
  • Barão de Cotegipe

Gaúcha ZH

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