Comportamento
Foto: Arquivo Pessoal

A família Somavilla, do interior de Estrela Velha, na região central do Rio Grande do Sul, virou manchete em jornais de todo o Brasil por improvisar uma sala de aula para Alan, 11 anos, estudar virtualmente. O ponto, em meio a lavoura, era o único com sinal de internet móvel na propriedade rural, e ali o garoto acompanhava as lições remotas. Os pais garantem que não havia outra intenção, mas o esforço para garantir acesso à educação do único filho foi recompensado – nesta sexta-feira (23), eles estão em uma casa nova, de alvenaria, construída a partir de campanhas virtuais. A mudança foi concluída ontem.

Dejanira Somavilla, 35 anos, repete o que foi dito nas primeiras entrevistas que concedeu para explicar a ideia de erguer uma tenda na roça: foi uma coisa simples. Preocupada em demonstrar gratidão, a agricultora escreveu em um pedaço de papel um pequeno discurso de agradecimento a quem contribuiu na vaquinha pela internet, criada por grupos que se sensibilizaram com as más condições da tapera de madeira:

– Estou muito grata, tenho até medo de esquecer alguém. Foi muita gente que ajudou, que se comoveu com nossa simples atitude.

Foto: Arquivo Pessoal

O total recebido para erguer a nova morada foi de R$ 79 mil. Dentre os apoiadores, estão o apresentador da Rede Globo Luciano Huck, que divulgou a história em rede nacional. O comunicador também doou uma parcela do valor que possibilitou a construção, segundo ela, e um grupo de advogados de Porto Alegre reuniu recursos para o menino seguir no sonho de cursar Direito.

A nova residência tem varanda e três quartos. Contrasta com o antigo imóvel, ao lado, de tábuas desgastadas e sem pintura. Em uma foto, são visíveis remendos no telhado de barro. A base da parede foi corroída pelos cupins. Nos fundos do terreno, se vê o que restou da estrutura provisória de estudos, próximo aos pés de fumo cultivados para o sustento do trio.

Foto: Arquivo Pessoal

– Vamos desmanchar a casa e o Odilésio vai construir uma casinha menor, com as madeiras melhores – explica, sobre os planos futuros do marido.

Durante a obra, Odilésio Somavilla, 54 anos, dividiu a rotina do dia: trabalhava colhendo fumo e, após a lida no campo, auxiliava os pedreiros.

– Ajudei como podia – afirma o colono.

No novo quarto, com uma bancada recém-instalada, Alan tem agora tranquilidade para estudar. Feliz pelo conforto, ele anota no caderno as lições repassadas via Google Classroom, plataforma utilizada pelo governo gaúcho para o ensino a distância. Na escrivaninha, o modem que amplia a capacidade do sinal e que possibilitou que ele deixasse a tenda, construída no único local do terreno em que pegava a internet antes da ajuda.

Foto: Arquivo Pessoal

– Estou me sentindo muito feliz por ter agora um quarto para estudar, ter internet, e não precisar sair de dentro de casa. A barraca está lá ainda, nós vamos deixar até ela se destruir sozinha – afirma o estudante do sétimo ano.

A instalação do novo sistema de internet móvel também foi fruto de mobilização. Diretores das maiores empresas de telefonia do país estudaram meios de atender a região, e um equipamento que amplifica o espectro foi o escolhido.

A Escola Estadual de Ensino Fundamental (EEEF) Itaúba montou uma sala de informática mais moderna. Ganhou ainda 13 novos tablets – doação que veio dos Estados Unidos, segundo a diretora Giovana Carvalho Dalcin, 46 anos. A docente visitou a nova casa do estudante na quinta-feira (22).

– Fiquei muito emocionada em ver a família tão feliz. O pai com lágrimas dos olhos, olhando o filho no quarto, com todas as condições necessárias para acompanhar as aulas – afirma. – O que me deixa mais impressionada é a importância que eles dão ao estudo na vida do filho – finaliza.

GZH