A expectativa de formação de um fenômeno El Niño “muito forte” no final deste ano, o que deve aumentar o volume de chuva sobre o Rio Grande do Sul, ganhou impulso nos últimos dias.
Uma nova rodada de simulações divulgada no começo deste mês pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) indica grande probabilidade de a temperatura do Pacífico ficar além de 2°C acima da média a partir do final do inverno no Hemisfério Sul — patamar que representa um episódio de alta intensidade. O nível de aquecimento previsto no mais recente boletim é mais elevado do que em relatórios anteriores.
— Não devemos analisar apenas um modelo, mas um conjunto de modelos. Existe uma probabilidade maior de o El Niño estar mais intenso no final do ano. Resta, ainda, a confirmação disso — avalia o meteorologista Fábio Pinto da Rocha, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Em março, por exemplo, o centro europeu esperava uma variação de temperatura entre 1,5°C e 3°C além do normal. Agora, esse intervalo passou a ser de 2°C a quase 4°C. Isso poderia levar à quebra do recorde de 2,6°C verificado entre 2015 e 2016.Play Video
— O cenário não é bom. Um El Niño moderado já é suficiente para nos trazer impactos, principalmente no segundo semestre. Tem um modelo desse instituto (europeu) que mostra chuva acima da média lá em setembro, outubro e novembro. Mas acredito que os volumes já possam ficar acima da média antes disso — avalia a meteorologista da Climatempo e do Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Estado (CMDEC) Cátia Valente.
Hidrólogo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Fan faz uma análise similar:
— De uma forma geral, a indicação de El Niño, com grande chance de El Niño forte, é mantida. Talvez, podemos dizer que, agora, com um pouco mais de certeza.
Cátia pondera que, a partir das próximas semanas, esse grau de certeza deverá aumentar, seja para confirmar ou não os atuais prognósticos:
— A partir do final de maio, junho, vamos entender melhor a intensidade desse fenômeno.
A meteorologista enfatiza que ainda não é possível dizer se os gaúchos poderão sofrer cheias tão severas quanto a de 2024 — isso também depende de fatores meteorológicos de mais curto prazo, como eventuais bloqueios atmosféricos que prolonguem a duração da chuva em uma mesma região.
A seguir, confira algumas respostas sobre questões envolvendo o prognóstico climático para os gaúchos até o final deste ano.
Tire dúvidas sobre a expectativa de El Niño:
O que já é possível dizer com certeza sobre a ocorrência de El Niño neste ano?
É praticamente certo que haverá El Niño, que corresponde ao aquecimento da água do Oceano Pacífico acima da média histórica. A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos Estados Unidos estima 62% de chance de o El Niño se configurar entre junho e agosto, e 90% a partir desse período. Ou seja, a possibilidade de que as condições se mantenham neutras é de apenas uma chance em 10.
Qual deverá ser a intensidade do fenômeno?
Ainda é difícil apontar com razoável nível de precisão a “força” do El Niño, mas há indícios de um episódio significativo. O dado mais recente disponível no site da NOAA indica 50% de risco de um fenômeno forte ou muito forte. Outros 25% se relacionam a uma ocorrência moderada, mesmo patamar para “fraco” ou “neutro”.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) prevê um cenário mais favorável a um fenômeno intenso. O mais recente gráfico do centro, que congrega uma série de simulações, aponta para um aquecimento de pelo menos 2°C além da média — o que já configuraria um episódio muito forte.
Classificação
- Neutro — Até 0,4°C acima da média
- Fraco — De 0,5°C a 0,9°C
- Moderado — De 1°C a 1,4°C
- Forte — De 1,5°C a 1,9°C
- Muito forte — Igual ou acima de 2°C
Por que ainda não é possível dizer com certeza se será um “super El Niño”?
Quanto maior a antecedência do prognóstico, também tende a ser maior a dificuldade de os diferentes modelos informatizados de previsão convergirem para um mesmo ponto. Pequenas variações no clima agora podem resultar em diferenças significativas nos próximos meses.
Meteorologistas costumam se referir a uma “barreira de previsibilidade” que dificulta a margem de acerto até a primavera, no Hemisfério Norte, ou o outono, no Hemisfério Sul. É um período de transição climática em que os modelos de previsão oscilam mais e dificultam antever a intensidade ou a duração do El Niño.
As previsões de um El Niño muito forte estão se tornando mais frequentes?
Sim. Embora alguns centros importantes de meteorologia ainda não tenham atualizado a predição de intensidade desde abril, como no caso da NOAA, outros institutos e especialistas vêm reforçando a expectativa de um fenômeno muito intenso. Uma das referências globais em termos de previsão, o ECMWF vem divulgando mensalmente uma rodada de simulações que aponta, cada vez mais, para um “super El Niño”.
O gráfico apresenta uma série de pontos ao longo do tempo. Cada um representa o resultado de uma simulação da possível temperatura do Pacífico em um certo período. Eles variam conforme os diferentes cálculos dos desdobramentos das condições iniciais. Quanto maior a extensão da “pluma” formada pelo gráfico ao final do período, maior o grau de incerteza. Ainda assim, a média dessas simulações é um indicador do que pode ocorrer no futuro.
Em março, a maior parte das simulações feitas pelo ECMWF indicava possibilidade de a temperatura do Pacífico ficar entre 1,5°C e 3°C acima da média no mês de dezembro. Em maio, o gráfico já apresentava todas as simulações acima de 2°C de variação — com algumas chegando perto dos 4°C no final do ano (veja comparação no infográfico abaixo).
A confirmação de El Niño significa que teremos enchentes no RS?
Significa que o risco é mais elevado. O El Niño provoca alterações globais no clima que incluem menos chuva no norte do país, por exemplo, e mais umidade no Sul. Como resultado, existe um perigo redobrado de cheias no Rio Grande do Sul.
Um estudo do hidrólogo Fernando Fan, de Ingrid Petry e de Andrew Wood, envolvendo o IPH e o Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica dos EUA, analisou dados colhidos por 788 estações climatológicas ao longo de 45 anos. A conclusão é de que o risco de eventos extremos na Bacia do Prata, região que inclui o Rio Grande do Sul, aumenta em 120% durante períodos de El Niño.
Em termos práticos: uma cheia de mais de 4 metros só aconteceu duas vezes em um século no Guaíba (em 1941 e 2024). Ou seja, estatisticamente, há 2% de risco de acontecer em um ano qualquer. Sob a influência de um El Niño, devido ao aumento esperado de precipitação, o percentual passa para pouco mais de 4%.
As cheias deverão ser tão graves quanto em 2024?
Não é possível prever até o momento. Isso decorre de uma razão fundamental: a proporção de uma cheia depende também de fatores meteorológicos que não há como antever com
tanta antecedência. Em maio de 2024, quando houve a enchente mais grave já registrada no Estado, o El Niño iniciado no ano anterior já havia enfraquecido. Mas a combinação do aquecimento da água do Atlântico, que lançou mais umidade na atmosfera, e de um bloqueio atmosférico que prolongou a duração da chuva sobre o Estado ampliou o desastre.
Em comparação, no período 2015/2016, houve um “super El Niño”, com temperaturas do Pacífico 2°C além da média. Ainda assim, a cheia foi bastante inferior à de dois anos atrás. Em 2015, em Porto Alegre, as comportas do Muro da Mauá foram fechadas, mas o Guaíba não chegou a avançar sobre o cais.
Gaúcha ZH
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