Fenômeno
El Soberbio, rio Uruguai. Foto: Arquivo/Divulgação

Os mapas meteorológicos voltaram a colocar o Sul do Brasil em estado de atenção. Uma atualização do modelo europeu ECMWF simulou acumulados localizados superiores a 500 milímetros no Rio Grande do Sul em um período de aproximadamente 15 dias, entre 12 e 27 de julho.

A projeção mais extrema indica cerca de 580 milímetros em uma área do território gaúcho. O número impressiona, principalmente pela lembrança das enchentes de 2024, mas precisa ser interpretado com cautela. Trata-se de uma rodada operacional isolada e não de uma previsão confirmada para todo o estado.

Apesar da incerteza sobre o volume exato, diferentes previsões passaram a convergir para um cenário de chuva excessiva e sucessivos episódios de temporais no Sul. A MetSul Meteorologia prevê uma sequência de instabilidades com duração de pelo menos cinco dias, começando na quinta feira, dia 16, e podendo avançar até terça feira, dia 21, ou além.

A Epagri/Ciram também passou a destacar o risco no período entre 18 e 27 de julho. A previsão catarinense indica que os maiores volumes devem ficar concentrados no Rio Grande do Sul, com marcas superiores a 200 e 300 milímetros em algumas áreas. Municípios de Santa Catarina próximos à divisa podem receber mais chuva e enfrentar maior instabilidade.

Em território catarinense, o risco começa de maneira mais isolada no Oeste e Extremo Oeste. Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, a combinação de calor, umidade e a formação de uma frente fria entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul pode provocar temporais a partir de quinta e sexta feira.

No sábado e no domingo, a instabilidade tende a ganhar força principalmente nas regiões próximas à divisa com o território gaúcho. Há possibilidade de chuva intensa, rajadas fortes e granizo. Como a previsão ainda possui vários dias de antecedência, a localização e a intensidade dos temporais podem mudar nas próximas atualizações.

O cenário ocorre enquanto o El Niño avança rapidamente no Oceano Pacífico. De acordo com análise da MetSul, a anomalia semanal da temperatura na região conhecida como Niño 3.4 atingiu 2 graus acima da média pelo método tradicional. O valor corresponde ao patamar informalmente associado a um Super El Niño.

A empresa afirma que o Pacífico alcançou essa marca mais cedo do que em outros grandes eventos registrados nas últimas décadas. O El Niño de 2023 chegou ao mesmo patamar somente em novembro. Nos eventos históricos de 1997 e 2015, a marca foi alcançada em setembro.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, utiliza atualmente outro índice para classificar a intensidade do fenômeno e ainda não declara oficialmente que o atual evento seja um Super El Niño. Entretanto, o órgão calcula em 81% a possibilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

A NOAA também aponta 97% de probabilidade de o El Niño continuar ativo durante os primeiros meses de 2027. Isso indica que os impactos observados agora podem ganhar força durante a segunda metade do inverno, a primavera e o início do verão.

Entre os fatores que aumentam o risco de temporais está a formação de um forte corredor de vento em baixos níveis, responsável por transportar ar quente e úmido da Amazônia até o Sul do continente. Ao encontrar frentes frias e sistemas de baixa pressão, essa umidade favorece tempestades severas, granizo, vendavais e grandes volumes de chuva.

A lembrança das enchentes de 2024 torna o cenário ainda mais sensível. Naquele episódio, estudos registraram acumulados entre 300 e 400 milímetros em poucos dias em algumas bacias do Rio Grande do Sul. A quantidade de água provocou rápidas elevações dos rios e uma das maiores tragédias climáticas da história do estado.

Mesmo assim, os especialistas ressaltam que a presença de um El Niño intenso não significa que os mesmos acontecimentos serão repetidos nos mesmos locais. Os impactos dependem da posição das frentes, da duração da chuva, das condições do solo e da sequência de sistemas meteorológicos.

O que existe neste momento é uma convergência de previsões indicando um período de alto risco para o Sul do Brasil. O acumulado superior a 500 milímetros representa o cenário mais extremo apresentado por uma rodada do modelo europeu. Já as projeções entre 200 e 300 milímetros aparecem em previsões regionais e exigem atenção redobrada, especialmente no Rio Grande do Sul e nas áreas catarinenses próximas à divisa.

A orientação é acompanhar as próximas atualizações da Epagri/Ciram, da Defesa Civil e dos demais órgãos meteorológicos. Com a aproximação dos sistemas, as previsões terão maior precisão sobre as cidades que poderão receber os maiores volumes.

Jornal Razão