Polícia
Foto: Arquivo Pessoal

Pouco antes de Liziane Beatriz Bastos completar 26 anos, em 1º de agosto, o namorado Jandir Scarantti, 28 anos, disse à sogra que o aniversário da companheira não poderia passar em branco. Fariam ao menos uma galinhada para comemorar, a pedido dele. Maria Janete da Silva, 61 anos, nem desconfiava que houvesse problemas no relacionamento do casal que todos os finais semana ia visitá-la no interior de Porto Mauá, no noroeste do Estado, e há pouco havia posado para um ensaio fotográfico que parecia demonstrar a felicidade da união.

As fotos de ambos sorridentes ainda estão no perfil do casal nas redes sociais. Vinte e oito dias depois da comemoração proposta por Scarantti, pedaços do corpo de Liziane foram localizados em uma casa em Novo Machado, após o companheiro ter sido encontrado morto, um dia antes, na residência onde o casal vivia, em Santa Rosa. A principal linha de investigação da Polícia Civil é de feminicídio seguido de suicídio.

Filha caçula de um casal de diaristas, Liziane nasceu em Tuparandi, mas foi criada junto com a irmã, dois anos mais velha, em Porto Mauá. Na escola, era querida por professores e colegas. Na descrição da mãe, “era uma criança conversadeira”, mas tirava boas notas. Repetiu de ano apenas na 5ª série. Há dois anos, perdeu o pai por doença no coração.

Foi morar em Santa Rosa para viver com o primeiro namorado, onde trabalhou em um frigorifico. Depois de cinco anos, o relacionamento acabou, e Liziane retornou para casa da mãe em Porto Mauá. A solteirice durou pouco. Foram cinco meses até conhecer Scarantti pelas redes sociais. Em fevereiro deste ano, o relacionamento começou e a jovem logo o apresentou para a mãe como um rapaz bom e querido, pai de dois filhos, de quatro e sete anos, frutos de um relacionamento anterior.

Em seguida, Liziane decidiu ir morar com o companheiro em Santa Rosa. Desde o início, porém, ele não gostava que a jovem conversasse com outros homens. Liziane não trabalhava nem estudava a pedido dele. Scarantti tinha ciúmes. Quando visitavam Maria, ele chegava a pedir para a namorada não conversar com homens da cidade, seja parentes ou vizinhos.

— Era muito ciúmes, ele não deixava ela estudar e trabalhar. Ela era muito bonita, vaidosa, se dava com todo mundo. Onde ia, chamava atenção e chegava dando risada. Eu aconselhava os dois, dizia que o ciúme não levava a nada. Liziane foi criada em um ambiente que eu e meu marido nunca brigamos na frente dela, numa casa sem discussão — relata a mãe.

Ainda assim, Maria diz nunca ter presenciado brigas do casal. Aos finais de semana, os dois chegavam lhe abraçando e brincando com os cachorros. No último encontro, em 23 de agosto – cinco dias antes de Liziane ser encontrada morta –, Maria e o casal almoçaram na casa de um vizinho dela. Comeram churrasco e jogaram carta até tarde. Mãe e filha ficaram a sós em mais de uma oportunidade, mas Liziane não confidenciou nada que pudesse estar lhe incomodando.

Como o relacionamento era recente, Maria perguntava com frequência como estava a vida nova. Fazia questão de dizer que as portas da casa estavam abertas caso a jovem decidisse voltar a Porto Mauá. Relembrando os diálogos que mantinha com a filha, não consegue elaborar o desfecho do namoro:

— Não dá para acreditar que uma coisa dessas aconteceu.

Sonho de ter o próprio dinheiro, estudar e trabalhar com animais

Apesar do ciúmes do companheiro, Liziane tinha planos de, a partir de outubro, procurar emprego no comércio de Santa Rosa e se matricular na Escola Estadual Técnica Fronteira Noroeste para concluir o curso Técnico em Agropecuária. O sonho da jovem era ter o próprio dinheiro, concluir os estudos e trabalhar com animais. O xodó de Liziane eram as cadelinhas Bonita e Amora, que agora estão aos cuidados de Maria. A mãe, porém, pretende doar os cães a algum parente. Trazem muitas lembranças da filha.

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Criteriosa com a aparência, Liziane chamava atenção pela beleza. Era vaidosa e especialmente cuidadosa com os cabelos. Ligada à mãe, conversava com Maria quase todos os dias por videochamada. A última vez que ela e a filha conversaram foi na terça-feira à noite, dia 25 de agosto, enquanto o casal se preparava para jantar na casa de amigos de Scarantti. Liziane ficou de ligar para a mãe na volta, mas como ficou tarde, não retornou.

Dois dias depois, Maria ouviu no rádio o convite para o velório do genro. Assustada, ligou para a filha. Telefone desligado. Sem entender o que estava acontecendo, foi até a cerimônia de despedida de Scarantti em Santa Rosa, se apresentou aos familiares dele e ouviu que sua filha havia sumido. Possivelmente, “teria fugido”.

— Conheci os pais dele ali. Fui no velório dele, mas para saber da minha filha. Nunca imaginei que algo assim pudesse ter acontecido. Entrei na sala do velório e disseram: não sabemos da Liziane — recorda Maria.

A partir da indicação de um parente de Scarantti, na sexta-feira (28) a polícia encontrou uma cova com pedaços do corpo de Liziane em um imóvel em Novo Machado. Os sinais indicavam que ela havia sido esquartejada. Na casa do casal, Scarantti havia sido localizado véspera, com um tiro, no banheiro. No local, foi apreendida, além da arma supostamente usada no suicídio, uma mala vazia suja de sangue. Também foi localizado um colchão com marcas de sangue. Os celulares de Scarantti  e Liziane foram encaminhados para perícia.

A delegada Josiane Froehlich, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Santa Rosa, afirma que aguarda a conclusão dos laudos do Instituto-Geral de Perícias (IGP), que devem levar até 45 dias, para esclarecer se Liziane foi morta na casa do casal e depois transportada para Novo Machado, ou se o crime já ocorreu onde o cadáver foi encontrado. A jovem não havia registrado nenhuma ocorrência contra o companheiro.

— Não temos nenhum elemento que indique participação de terceiros ou algo diferente (de femicídio seguido de suicídio) — afirma a delegada.

GaúchaZH