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Evandro acompanhou o velório e o enterro dos amigos ao lado da mulher, Fabiane Schmitz. Foto: Natalia Ribeiro

Numa tarde de descanso das atividades rurais, Evandro Pedro Schmitz, 31 anos, decidiu ir à Sede Comunitária União Arroio Abelha, interior de Sério, para jogar carta e beber com os amigos. O lazer não era costumeiro, mas, às vezes, ele se permitia. Foi o que o agricultor fez no domingo (3), se distanciando a cerca de 200 metros de casa. Schmitz não fazia ideia do que estava por vir. Ele seria um dos sobreviventes do atentado com quatro mortos que marcou o município de quase dois mil habitantes. “Foi o momento de maior terror que eu já presenciei ou imaginei viver”, conta.

Schmitz estava sentado ao lado de César Mário Verruck, 46, vizinho e compadre da família, quando viu Vanderlei Matthes, 32, ingressar armado no salão. “Ele começou a disparar, sem falar uma palavra. O César, o primeiro atingido, sequer viu ele” lembra. O agricultor recorda de muitos tiros. Conforme a Polícia Civil, foram 45 disparos de pistola 380. O atirador teria muita munição consigo.

Enquanto o desespero tomava conta do ambiente, Schmitz pulou por cima de cadeiras e agarrou o ecônomo do local. “Nos jogamos atrás da banca e os tiros não paravam. Até que num momento pararam e olhei pra fora. Ele estava tentando recarregar a arma”. Ao ver que Matthes preparava novo ataque, o homem pegou duas garrafas de cerveja e partiu em fuga. “Pensei que era tentar me salvar ou morrer”, recorda ele.

O atirador. Foto: Divulgação

O produtor pulou do balcão e acabou caindo em cima dos amigos, que haviam sido alvejados. Conta que “quebrei as garrafas na porta. Me joguei na porta pra fora. Tentei me salvar achando que iria conseguir da porta pra fora”. Sem olhar para trás, o homem, que é pai de um menino de sete anos, entrou em um matagal. Enquanto fugia, ele ouvia gritos de “não” e a continuidade dos disparos vindos do salão.

O socorro veio na comunidade de 16 de Outubro, em Araguari, também no interior de Sério. Schmitz correu na mata até encontrar ajuda. “Cheguei lá sem fôlego e já não mexia mais as pernas e os braços. O pessoal me acolheu, me pedindo o que houve, não conseguia mais explicar direito, só sabia falar que queria ir pra casa e pegar a minha família. Eu achava que ele vinha atrás de mim, me perseguindo”, fala.

Descansando na casa da mãe após o almoço, a mulher do sobrevivente, Fabiane Schmitz, 30 anos, foi acordada com barulhos no portão. Pensou que fosse visita, mas era o seu marido voltando com vida. “Ele só gritava pelo nosso filho. Achei que tinha acontecido algo com o menino e eu não estava sabendo”, comenta. O agricultor teve de receber atendimento médico e calmantes após a situação.

A família não tem suspeitas das motivações do ataque. Fabiane foi colega do atirador na escola e relata que ele era muito sozinho e quieto, que parecia não ter amigos. Mas a personalidade não era vista como um problema, tando que Matthes frequentava as reuniões do grupo de amigos, de acordo com o sobrevivente. “Ele ia lá às vezes. A gente tomava cerveja. Ninguém ia desconfiar. Conversava com a gente”.

Todos os falecidos eram amigos próximos de Schmitz. Por sorte o seu sogro não fazia companhia no encontro de domingo. A sogra Ciria passava com o neto, filho do casal, na casa de Verruck. Ela tomava chimarrão com a amiga, hoje viúva, soube da morte cruel. Também morreram Imério Ferri, 66, e Odair Ferri, 38, pai e filho. O atirador Matthes perdeu a vida posteriormente, durante confronto com a Brigada Militar.

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