Trânsito
Thiago com a esposa Vanessa e filha Giovanna. (Foto: Ana Pasqualina Fotografias)

Uma família conseguiu transformar um momento de dor, perda e despedida em algo generoso e de uma solidariedade que trouxe paz e ajudou a salvar três vidas. O morador de Morro Reuter, Thiago da Motta, de 38 anos, foi diagnosticado com morte cerebral após sofrer um grave acidente de trânsito em Dois Irmãos. No mesmo instante que os médicos confirmaram que já não havia mais o que fazer para manter Thiago vivo ou com chances de ter seu quadro de saúde revertido, a família se solidarizou e autorizou a doação dos órgãos.

A esposa Vanessa Meurer da Motta, 36 anos, tinha uma relação de 16 anos com Thiago, cuja união gerou a filha Giovanna, de 5 aninhos. Ela tem certeza de que se o marido pudesse tomar a decisão de ajudar a salvar outras vidas, ele também autorizaria a doação. “Quando recebemos, então, a confirmação da morte cerebral, logo os médicos comentaram se a gente já havia falado sobre doação. De imediato, eu e os familiares nos olhamos e concordamos. Autorizamos a doar todos os órgãos que fossem possíveis. A gente nunca se imagina numa situação assim, mas ainda conseguimos ajudar outras pessoas. Ele (Thiago) com certeza pensava igual”.

Infelizmente, apesar de todo atendimento e esforço de todos os profissionais “pelo Thiago não havia mais o que fazer, mas a gente ainda podia ajudar e fazer o bem por algumas pessoas que precisavam. Hoje, há três pedacinhos dele por aí, três pessoas que estão bem por isso; com certeza isso nos ajuda a enfrentar tudo que ocorreu”, disse ela. A confirmação da morte ocorreu na tarde de quinta-feira, dia 19, e na madrugada de sexta foi realizada a cirurgia. Foi possível doar o fígado e os rins de Thiago. “Ainda estamos tristes e aprendendo a lidar com a nova realidade, mas hoje entendemos que ele já havia cumprido sua missão aqui na terra. Se não fosse para ele se recuperar e conseguir viver como gostava e saudável, seria muito dolorido. Continuamos com nossa fé em Deus. Sabemos que Deus não quer que passemos por coisas ruins, mas elas acontecem; e são nessas horas que a fé precisa continuar forte”.

Vanessa e Thiago estavam juntos minutos antes do acidente. Eles almoçaram em casa e, em seguida, ela foi para o trabalho e Thiago tinha exame médico marcado em Novo Hamburgo. Pouco tempo depois do acidente, ocorrido na terça-feira, dia 17, na altura da Colônia Japonesa em Dois Irmãos, Vanessa recebeu uma ligação no celular e conversou com um bombeiro. Com o forte impacto da colisão, uma cadeirinha de criança chegou a ser arremessada. Bombeiros e a Brigada Militar chegaram a fazer buscas nas proximidades da colisão, em um matagal, para se certificar de que não havia uma criança ferida. Thiago estava inconsciente e, assim que seu celular foi localizado ainda no veículo, os profissionais conseguiram contatar Vanessa. “Me falaram de um acidente e quando disseram o modelo do carro, logo confirmei que ele era meu marido. O bombeiro me pediu da nossa filha, falei que ela estava bem na escolinha”. Vanessa e um familiar rapidamente foram para Dois Irmãos, porém, não tinham noção ainda sobre a gravidade. “Quando cheguei no Postão e me disseram que um médico conversaria com nós, percebi que era grave. Vi ele e parecia não estar tão mal, pois aparentemente não tinha ferimentos”. Vanessa seguiu com a equipe do Samu para o Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Canoas. No caminho, a pressão de Thiago despencou, mas a equipe conseguiu estabilizá-lo. Ao chegar na emergência, ele passou para a UTI. “Infelizmente, a lesão na cabeça foi piorando e se tornou irreversível. Minutos antes estávamos almoçando e depois ocorre isso. Ele saiu bem de casa e logo tudo aconteceu”.

O Diário