Polícia
Filho de três-passense. Foto: Reprodução

Um conhecido pistoleiro do Mato Grosso do Sul não chegou a comemorar o Ano-Novo. Na tarde de 31 de dezembro, Jardel Angelo Wink Soligo, 37 anos, morreu em uma troca de tiros com policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar em Campo Grande (MS). Conhecido como “Camisa 10”, ele era apontado como um dos principais matadores da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em território sul-mato-grossense.

Mas e qual a relação com o Rio Grande do Sul? “Camisa 10” era filho de Erineu Domingos Soligo, o “Pingo”, gaúcho apontado pela Polícia Federal como um dos maiores narcotraficantes da América do Sul. Natural de Três Passos (RS), Soligo migrou para o Mato Grosso do Sul na década de 1970 e se estabeleceu na fronteira com o Paraguai.

Plantava soja e mandioca e criava gado em cinco fazendas entre os municípios de Capitán Bado (Paraguai) e Aral Moreira (Brasil). Em paralelo, começou a produzir e traficar maconha para o Brasil. GZH passou pelas terras dele nos anos 1990. Eram cortadas por uma rodovia de chão batido, a Sul-Fronteira, que separava território paraguaio e brasileiro. Pingo inclusive teria patrocinado a construção de um posto policial na estrada transnacional, conforme informações recebidas pela PF.

As propriedades de Pingo ficavam tanto no Paraguai quanto no Brasil e tinham pistas de pouso próprias, o que facilitava voos clandestinos. Conforme relatos da PF, a marijuana era plantada em meio a roças de mandioca.

Investigações apontam que, no início dos anos 2000, Pingo transformou suas fazendas em entreposto para contrabandear cocaína boliviana, em associação com o mega-traficante carioca Fernandinho Beira-Mar, que estava morando na região de fronteira com o Paraguai.

Beira-Mar, líder do Comando Vermelho, deu entrevistas a rádios paraguaias e assumiu ter mandado matar rivais de Pingo no tráfico de maconha. O traficante carioca acabou preso na Colômbia, para onde se mudou em 2001. Desde aquele anos está preso.

Após a prisão de Beira-Mar e a decadência do CV na fronteira, Pingo teria se aproximado de outra facção, o PCC, para quem forneceria drogas. Em 2005, foi identificado como dono de um avião interceptado em Santana do Livramento pela PF, carregado com 500 quilos de maconha e 30 de cocaína. A droga iria para o Uruguai.

“Camisa 10”, que saiu logo da prisão, seria o herdeiro de Pingo fora da cadeia, conforme investigações policiais. Era integrante da “Sintonia de Fronteira” do PCC, uma espécie de gerente para ações na região. É investigado por quatro execuções nos últimos meses e por isso estava foragido.

Quatro execuções na saída da prisão

Jardel tinha um mandado de prisão em aberto pela morte de Marlon Ricardo da Silva Diarte, assassinado a tiros em Campo Grande, em 8 de dezembro. Ele foi morto ao sair de um presídio. Ele também era ligado ao PCC, o que aponta para uma rixa interna na facção.

Além da morte de Marlon, a polícia trabalha com a informação de que Jardel seria o executor do preso Juliano Pereira, 42 anos, ocorrida no dia 30 de novembro. A vítima estava saindo Centro Penal Agroindustrial da Gameleira (Campo Grande) quando foi cercado pelo pistoleiro. Dois dias depois, em 2 de dezembro, Edilson Rodrigues dos Anjos, 32 anos, foi morto logo após deixar o Instituto Penal de Campo Grande, quando estava na rua, seguindo para um ponto de ônibus. No dia 10 de dezembro, Robson Jorge da Silva, 32 anos, foi assassinado em frente à Casa do Albergado, na Vila Sobrinho, também na capital sul-mato-grossense. Em todos esses casos, “Camisa 10” teria participação, conforme policiais do Mato Grosso do Sul.

Jardel foi morto durante abordagem policial. PMs que faziam uma barreira desconfiaram do nervosismo dele e pararam o Renault Fluence que ele conduzia, na Vila Bordon, periferia de Campo Grande. Conforme relato dos policiais, ele teria relutado em sair do carro e tentou sacar uma pistola. Foi baleado e socorrido para uma Unidade de Pronto Atendimento (Upa). Morreu cerca de 40 minutos depois de dar entrada na unidade de saúde. Com ele foi apreendida uma pistola calibre .40 com numeração raspada e carregador contendo diversas munições intactas de igual calibre.

Polícia Militar / Divulgação
Foto: Polícia Militar / Divulgação

O desafio dos policiais, agora, é descobrir a mando de quem aconteceram as execuções atribuídas a “Camisa 10”.

— Essa morte é o fim de uma era no crime — resume um delegado federal que atua na fronteira com o Paraguai.

GZH