Polêmica
Foto: Reprodução

São mais de 300 medalhas conquistadas no xadrez por cinco irmãos que representam Blumenau em torneios regionais e nacionais. Do outro lado da balança, uma multa de 40 salários mínimos. A comparação foi feita pela própria família Vieira, condenada em primeira instância pela Vara da Infância e Juventude da comarca por praticar a Educação Domiciliar, o homeschooling, e transformou o processo em símbolo de um embate que já passou pela Assembleia Legislativa, pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina e pelo Supremo Tribunal Federal.

A sentença condenou o casal ao pagamento de 40 salários mínimos, divididos em 20 para cada um dos pais, e determinou a matrícula compulsória das crianças na rede de ensino. Segundo a família, a ação cível foi aberta pelo Ministério Público por infração administrativa, com base no artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente, e envolve quatro filhos em idade escolar.

Os pais sustentam que apresentaram ao processo planejamento pedagógico, laudos de avaliação, acompanhamento por professores, registros de aprendizagem e de socialização e comprovantes de atividades culturais e esportivas. Afirmam ainda que as crianças foram avaliadas pelos psicólogos forenses do próprio fórum, com laudo que teria sido favorável à família. Mesmo assim, segundo o casal, o juiz teria negado a produção de provas psicopedagógicas e não teria ouvido as crianças em audiência antes de sentenciar.

A família está longe do anonimato. Diego Vieira preside a Associação de Famílias Educadoras de Santa Catarina (AFESC), integra a diretoria da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED) e atua na Global Home Education Exchange (GHEX), com mais de uma década de defesa da regulamentação do homeschooling no Congresso Nacional e em assembleias e câmaras pelo país. Há mais de dez anos, o casal mantém o perfil público Educando para o Céu, onde compartilha a rotina de estudos dos filhos. Em 2023, as crianças receberam Moção de Aplauso aprovada por unanimidade na Assembleia Legislativa de Santa Catarina pelas conquistas no xadrez.

O filho mais velho, Igor, de 19 anos, ficou fora do processo por já ser maior de idade e é apresentado pela família como prova de que o modelo funciona: tornou-se Mestre Nacional de xadrez, árbitro nacional, professor do Clube de Xadrez de Blumenau e cursa licenciatura em Letras e História, além de dar aulas de latim, inglês, literatura e história.

“Perseguição por um crime inexistente”

O caso ganhou dimensão política com a entrada em cena de Bruno Souza, candidato a deputado estadual pelo PL e ex-deputado, que publicou vídeo nas redes sociais em solidariedade ao casal, a quem chama de amigos. Para ele, a família está sendo “perseguida por um crime inexistente”.

“Não é sobre educação, é sobre domínio da mente dos nossos filhos. Não é sobre educação, é sobre o Estado querendo entrar porta dentro da tua casa, dizendo como as tuas crianças devem ser criadas”, afirma Bruno Souza no vídeo.

Para o candidato, a decisão inverte a lógica básica de uma democracia, em que o cidadão pode fazer tudo o que a lei não proíbe. “O perigo disso é que o seu direito natural como cidadão, a sua liberdade, se torna uma concessão do Estado e não mais um direito que nasce com você”, diz Souza, que classifica o cenário como “anomalia democrática”.

A lei que caiu no STF

A relação de Bruno Souza com o tema vem de longe. Quando deputado estadual, ele foi o autor do Projeto de Lei Complementar 3/2019, aprovado pela Alesc em outubro de 2021, que regulamentava a educação domiciliar em Santa Catarina. O texto foi sancionado em novembro daquele ano e virou a Lei Complementar 775/2021, que fez do estado referência nacional da pauta.

A lei, porém, caiu. O Ministério Público de Santa Catarina ajuizou ação direta de inconstitucionalidade, e o Órgão Especial do TJSC declarou a norma inconstitucional por unanimidade, por entender que legislar sobre diretrizes e bases da educação é competência privativa da União. O Estado recorreu, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, manteve a decisão do tribunal catarinense, registrando que o ensino domiciliar não é vedado pela Constituição, mas depende de lei federal editada pelo Congresso Nacional.

É nesse vácuo legal que famílias como a de Blumenau seguem sendo processadas. O entendimento firmado pelo STF em 2018, no Tema 822, reconheceu que o homeschooling não é proibido, mas exige regulamentação federal, hoje concentrada no PL 1338/2022, aprovado na Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado Federal. Para a família Vieira, o processo escancara a urgência dessa regulamentação, para que pais que comprovadamente educam os filhos deixem de ser punidos pela ausência de lei específica.Candidato do PCO ao governo de SC propõe armas para “índios”, salário mínimo de R$ 7.500 e fim do STF

O que vem agora

O casal anunciou que vai recorrer da sentença ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina. “Para nossa família, a Educação Domiciliar é inegociável”, afirma Diego Vieira, que classifica o processo como perseguição às lideranças públicas da causa. Enquanto o recurso não é julgado, a determinação de matrícula das crianças e a multa de 40 salários mínimos seguem valendo, e a família encerra sua manifestação com a conta que quer deixar na frente do Fórum de Blumenau: “300 medalhas. 40 salários mínimos. A sociedade que tire suas próprias conclusões.”

Jornal Razão

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