A ponte sobre o Rio Barra Grande, no km 146,550 da SC-283, em São Carlos, no Oeste catarinense, estava sem proteção lateral havia dias, destruída num sinistro anterior. Chovia, o trecho é rural, a pista não tinha buracos e a sinalização estava em ordem. Não havia marcas no asfalto capazes de indicar sequer de que sentido o Fiat Doblò vinha quando despencou no rio, na tarde de 21 de julho. Era o cenário perfeito para um acidente. E foi assim que a morte da jovem de 24 anos encontrada às margens daquele rio foi tratada por dez dias.
Nesta sexta-feira (31), a Polícia Civil desmontou a versão. Welton André Dambros, de 30 anos, marido da vítima, confessou tê-la matado dentro de casa. O pai dele, de 53 anos, admitiu ter ajudado a ocultar o corpo e a simular a queda do veículo na rodovia. Os dois foram presos, e o caso passou a ser tratado como feminicídio.
Asfixia dentro de casa
Segundo a investigação, o crime aconteceu em 20 de julho, um dia antes de o carro ser localizado dentro do rio. Conforme o depoimento do investigado, a mulher foi morta por asfixia na residência do casal, em Xaxim, onde estavam os dois filhos pequenos, de 8 e 2 anos.
O próprio marido relatou aos investigadores que aplicou na vítima o golpe conhecido como mata-leão, provocando o sufocamento. A informação, segundo a polícia, é compatível com os elementos apontados pelo laudo cadavérico, que já indicavam sinais de asfixia.
Depois do homicídio, ainda conforme a investigação, pai e filho colocaram o corpo dentro do Fiat Doblò e seguiram até a ponte sobre o Rio Barra Grande. Ali, empurraram o veículo para dentro da água.

A cena que quase funcionou
A ocorrência foi registrada por volta das 16h15 do dia 21 e mobilizou a Polícia Militar Rodoviária, o Corpo de Bombeiros Militar e a Polícia Científica. A vítima foi localizada fora do veículo, às margens do rio, sem sinais vitais, e precisou ser retirada com apoio dos bombeiros. O carro ficou submerso em ponto de difícil acesso, o que impediu a avaliação das avarias e adiou a remoção para um dia de condições melhores.
Nada no local ajudava a esclarecer o que havia acontecido. A proteção da ponte já não existia, não havia vestígios que apontassem a trajetória do veículo e a velocidade máxima permitida no trecho é de 60 km/h. A ocorrência foi registrada como saída de pista seguida de queda.
A versão apresentada no próprio local
Por volta das 19h30 daquela terça-feira, com o corpo já retirado do rio, o marido chegou ao local do sinistro e apresentou aos policiais uma versão sobre a mulher. Disse que os dois estavam em processo de separação, que ela vinha misturando medicamento com bebida alcoólica e que teria mudado de comportamento de forma repentina. Afirmou ainda que ela teria dito que iria se matar e matar os filhos, e citou mensagens e áudios trocados por aplicativo.
Na mesma data, ele registrou um boletim de desaparecimento, sustentando que a esposa estava sumida desde o dia anterior. Era exatamente o dia em que, segundo a confissão prestada dez dias depois, ele já a havia matado.
A despedida nas redes
Enquanto a morte seguia tratada como acidente, o marido publicou nas redes sociais uma despedida em que chamava a esposa de seu bem mais precioso e dizia esperar reencontrá-la.
Deus, por que levar meu bem mais precioso? Que eu cuidei, dediquei meu amor, sei que foram momentos difíceis e também fáceis, mas sempre ao seu lado. Logo logo nos encontramos na próxima vida
O velório aconteceu no dia 22, na Capela Mortuária de Ipuaçu, com cerimônia religiosa às 16h e sepultamento no cemitério municipal.

A busca em Xaxim e o caderno apreendido
A virada veio na manhã desta sexta-feira. Por volta das 6h, equipes da Delegacia de São Carlos, com apoio da Delegacia de Xaxim, cumpriram mandado de busca e apreensão em dois endereços ligados ao investigado. Numa das residências, sem moradores no momento, a Polícia Científica foi acionada para periciar o ambiente e utilizou iluminação ultravioleta na procura por vestígios. Os resultados serão detalhados em laudo.
Durante a busca, os policiais apreenderam um caderno com anotações de interesse para a investigação. Em um dos documentos localizados nas diligências, segundo a Polícia Civil, havia referência a um suposto acordo entre o casal de que, se um dos dois morresse, os filhos seriam mortos e um suicídio deveria ocorrer em seguida. O investigado afirmou que pretendia matar as crianças e depois tirar a própria vida, plano que não chegou a ser executado.
As investigações apontam ainda que o casal estava em processo de separação. A Polícia Civil destacou que o homem demonstrou frieza durante o interrogatório e não aparentou abalo emocional, apesar do relacionamento de aproximadamente 12 anos com a vítima.
A jovem morava em Xaxim, trabalhava como entregadora ao lado do marido e deixa dois filhos.
O caso se soma a um cenário que vem se agravando em Santa Catarina. Levantamento do Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina, com base em dados da Secretaria de Segurança Pública, apontava 30 feminicídios no estado entre janeiro e o início de julho deste ano, alta de aproximadamente 36% na comparação com o mesmo período de 2025, quando foram 22 registros.
A Polícia Civil informou que as investigações continuam para esclarecer todos os detalhes do feminicídio e da tentativa de ocultação do crime.
Jornal Razão
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