A Corregedoria-Geral da Brigada Militar concluiu o Inquérito Policial Militar (IPM) que investigava a morte do agricultor Marcos Daniel Nörnberg, ocorrida em janeiro deste ano, em Pelotas, no Sul do Estado. O relatório final aponta que não houve crime por parte dos policiais envolvidos na ação.
De acordo com o documento obtido pelo Correio do Povo, a ocorrência teve início a partir de uma operação para localizar suspeitos de um roubo com sequestro registrado dias antes na zona rural do município.
Durante a abordagem, houve troca de tiros entre policiais e o morador da residência. A perícia indicou que disparos foram realizados tanto do lado de fora quanto de dentro da casa, caracterizando situação de “fogo cruzado”. Ainda conforme o relatório, há elementos técnicos que apontam que o agricultor efetuou disparos com um rifle calibre .22 no interior do imóvel.
A análise pericial também identificou múltiplos disparos provenientes de diferentes posições ao redor da residência, com concentração na área onde a vítima se encontrava.
O IPM considerou que a atuação dos policiais ocorreu no contexto de uma operação legítima e dentro das circunstâncias enfrentadas no momento da ocorrência. “No que tange ao volume de disparos efetuados de forma sucessiva pelos policiais do 4º BPM e do 5º BPChq, a ação, do ponto de vista técnico, é legitimada, além do acima citado, pelo conceito fisiológico da Incapacitação Tardia e pela Doutrina da Resposta Não Convencional”, diz trecho do documento.
Com base nos elementos reunidos, o inquérito concluiu pela inexistência de conduta criminosa por parte dos agentes. “O resultado morte derivou de uma intensa e caótica troca de tiros iniciada pelo morador sob erro de percepção”, consta no IPM.
Outro ponto descartado na investigação interna da BM é a hipótese de tortura que teria sido praticada contra Raquel Nörnberg, esposa do agricultor. “As lesões apresentadas não demonstram materialidade compatível com o crime de tortura. Mais contundente ainda é a resposta oficial do Instituto-Geral de Perícias ao terceiro quesito do laudo: indagada se as lesões foram produzidas por tortura, a perita respondeu expressamente ‘NÃO’”, justifica.
Falhas são apontadas no relatório
Apesar de concluir pela inexistência de crime, o Inquérito Policial Militar apontou falhas na condução da operação, especialmente na fase de planejamento e articulação das equipes. Segundo o documento, houve “completa ausência de delineamento tático para a execução da missão”, com ordem genérica de averiguação e sem definição clara de comando ou estratégias operacionais.
O relatório também destaca que não houve análise prévia do cenário nem elaboração de planos de contingência, o que teria contribuído para a descoordenação da ação. Ainda assim, a conclusão é de que não houve dolo ou má-fé dos envolvidos, sendo caracterizado um “erro de avaliação de risco e excesso de ímpeto operacional”, diante da tentativa de dar uma resposta rápida a crimes na região.
Investigação da Polícia Civil ainda não foi concluída
Além da investigação interna realizada pela Corregedoria-Geral, o caso também é apurado pela Polícia Civil. Titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Pelotas, Walquíria Meder, pediu afastamento das investigações do caso.
Segundo o diretor do Departamento de Homicídios do Interior, Thiago Carrijo, que está a frente do caso, a Polícia Civil deverá concluir o inquérito policial nos próximos dias. “Ainda precisamos finalizar alguns detalhes. Creio que isto ocorra dentro de 15 a 30 dias”, projeta. O delegado não especificou quais detalhes faltariam para a conclusão da investigação. “Não posso adiantar, pois a investigação é muito sensível e está em reta final”, justifica.
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O que diz a BM
Questionada sobre a conclusão do IPM, a Brigada Militar se manifestou em nota, afirmando que o caso permanece sob sigilo e diz que só se manifestará de forma conclusiva após a finalização de ambas as investigações (IPM e Polícia Civil).
Confira a nota na íntegra:
“A Brigada Militar informa que, em relação ao fato ocorrido em Pelotas, no dia 15 de janeiro de 2026, tendo como vítima a Sra. Raquel Nornberg, encaminhou, por determinação judicial, o Inquérito Policial Militar à Justiça Militar do Estado, para análise, permanecendo o feito sob sigilo.
Considerando que a apuração dos fatos encontra-se desdobrada em duas esferas distintas, sendo os crimes militares investigados no âmbito da Brigada Militar e o crime doloso contra a vida sob responsabilidade da Polícia Civil, a Instituição somente se manifestará de forma conclusiva após a finalização de ambas as investigações”.
“É muito triste um relatório desses”, diz viúva
Questionada sobre o resultado os apontamentos do IPM, a viúva do agricultor, Raquel Motta Nörnberg, mostrou indignação. “Eu já esperava, mas é muito triste um relatório desses. Não tinha como ser diferente, pois quem cometeu os crimes e quem analisou (o IPM) pertencem ao mesmo lado”, argumenta.
Segundo ela, foi uma “nova tortura” ler a conclusão da investigação. “Como alguém que não viveu aqueles momentos pode afirmar que não fui torturada. Eles dizem no relatório que tudo foi muito leve, o que é um absurdo. A sociedade tem que saber que crimes cometidos pela Brigada Militar nunca serão julgados como deveriam, enquanto estiverem na mão da Corregedoria”, afirma.
Ela diz que ainda espera a conclusão do inquérito da Polícia Civil, mas que pretende lutar para federalizar a investigação. Raquel afirmou ainda que contratará um perito particular para trabalhar no caso, junto com o seu advogado. “ É muito triste tudo isso. As perícias não comprovaram que o Marcos deu algum tiro. O exame residual da mão dele não foi conclusivo. Os barulhos iniciais são de portas e janelas estourando. Eles vão ter que provar que o meu marido atirou primeiro”, concluiu.
“Policiais agiram em legítima defesa”, cita advogado de militares
Para o advogado Rafael Romeu, que defende os policiais, a averiguação é um procedimento padrão da Brigada Militar. “Eles agiram em legítima defesa e dentro da técnica. Ao enxergar o civil armado, os policiais deram ordem para o mesmo largar a arma. Essa verbalização durou mais de um minuto e 20 segundos antes do primeiro disparo ser efetuado contra os policiais”, observou.
Romeu afirma que na audiência pública, realizada nesta semana em Pelotas, um político intimidou, com palavras, os encarregados dos inquéritos. “Pelas redes sociais fui informado sobre o que aconteceu na Câmara. Foi precipitado, pois não tinham conhecimento do inquérito. Estamos estranhando é a pressão e a intimidação política que ocorre entorno do caso para criar supostos culpados”, ponderou.
Segundo ele, o primeiro disparo no dia da ocorrência atingiu um escudo balístico. “No decorrer da semana, iremos nos manifestar sobre a conclusão do Inquérito Policial Militar (IPM), mas adianto que ele está baseado na técnica policial e nas perícias realizadas, e não no achismo”, finalizou.
Correio do Povo
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