A ação da Brigada Militar (BM) que resultou na morte do agricultor Marcos Nörnberg, de 48 anos, na zona rural de Pelotas, foi realizada sem um mandado de busca e apreensão ou qualquer ordem judicial. A informação foi confirmada pelo corregedor-geral da BM, Rodrigo Assis Brasil Ramos Aro, que entendeu que a entrada na propriedade com base em uma “presunção de uma situação de flagrância”.
“Já está claro que não havia mandado, o que havia então era uma presunção de uma situação de flagrância, decorrente de uma situação que havia sido constatada e flagrada no estado do Paraná”, afirma.
O comandante-geral da polícia militar gaúcha, coronel Cláudio Feoli, também explicou o contexto preliminar que levou à ação na propriedade rural. Segundo ele, dois membros de um grupo criminoso que era buscado em Pelotas foram presos no Paraná e deram pistas sobre a localização dos outros suspeitos. A indicação, porém, teria induzido os PMs ao erro.
A operação aconteceu somente quatro horas após a prisão dos suspeitos no Paraná. Segundo o corregedor-geral, as informações continham dados precisos sobre a residência e detalhes sobre o que acontecia naquele local. O comandante-geral admitiu que houve um “grande equívoco” na ação.
“Não pode se dizer de outra forma, um grande equívoco ocorreu. Isso não é julgamento preliminar, é uma constatação”, disse Feoli, durante evento de divulgação dos dados de criminalidade de 2025, na quinta-feira.
Para o professor de Política Social e Direitos Humanos da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Luiz Antônio Chies, a operação foi “apressada” e o desfecho, “inadmissível”. Segundo ele, a fonte da informação exigia um trabalho de inteligência mais criterioso antes de uma ação ostensiva.
“Foi feito de uma maneira muito apressada, querendo aproveitar talvez o calor dos eventos e ter uma solução rápida”, analisou.
Chies também apontou falhas no protocolo de abordagem. “Deveria ser anunciado que era a polícia. No contexto da zona rural de madrugada, tudo era possível para aquele morador interpretar”, afirmou o especialista, que considera que a situação não era de emergência a ponto de dispensar um mandado judicial ou o envolvimento de outros órgãos, como a Polícia Civil.
Os 18 policiais militares envolvidos na ação foram afastados. A Corregedoria-Geral da Corporação instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar o caso. As armas utilizadas na ação foram apreendidas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/9/0/UqIK0XQfeDxZCWHvwzbg/stup-indicadores-bdrg-1501-0010.mxf.sub.01-frame-4923.jpg)
Comandante-geral da Brigada Militar, Cláudio Feoli — Foto: Reprodução/RBS TV
Paralelamente, a Polícia Civil também abriu um inquérito. O delegado César Nogueira afirmou que a Corporação não tinha conhecimento prévio da ação da BM e classificou o número de policiais e viaturas como “incomum”. Testemunhas, incluindo a viúva e familiares da vítima, serão ouvidas a partir de segunda-feira (19).
“As informações foram passadas com riqueza de detalhes. De que teríamos cinco indivíduos seriam ligados à facção que estariam fazendo a guarda deste local. Com base nestas informações, se deu a abordagem. Se fez uma junção de guarnições para que nós chegássemos com supremacia de força diante deste contexto, que foi estabelecido por essa informação dada pelos dois delinquentes presos. A partir daí, então, houve a aproximação na propriedade rural”, contextualizou.
A PM do Paraná informou que as informações que foram compartilhadas eram “provenientes do serviço de inteligência da cidade de Guaíra, onde ocorreu a abordagem de suspeitos oriundos do Rio Grande do Sul, competindo a cada instituição o trato da informação e a operacionalização das ações de Polícia”.
Nörnberg foi sepultado na manhã desta sexta-feira (16) no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, em Pelotas. Amigos e familiares acompanharam a despedida. Em razão dos ferimentos, o velório ocorreu com caixão fechado.
Esposa achou que estava diante de bandidos
A viúva de Marcos, Raquel Nörnberg, achou que estava diante de bandidos, em razão da truculência e do linguajar usado pelos policiais na abordagem.
“A gente achou que era bandido, a gente jamais imaginou que era polícia. Abriram meu roupão, debocharam de mim, mandaram eu me ajoelhar em cima do lugar que estava cheio de caco de vidro [estilhaçados após tiros atingirem uma janela]. Foi uma brutalidade. O tempo inteiro eu achei que eram bandidos”, conta.
Raquel afirmou que só percebeu que se tratava de uma ação policial ao ver os uniformes, mas que a brutalidade a fez duvidar:
“Não consigo entender que a polícia faça uma ação dessas e trate pessoas do bem como criminosas. É uma dor que tu não tem noção”.

Achei que eram bandidos’, diz viúva de produtor rural morto em ação da PM no RS
O caso
O fato aconteceu na madrugada desta quinta (15). De acordo com a viúva, o casal estava dormindo quando percebeu movimentação no pátio da propriedade, localizada na Estrada da Cascata. Marcos teria saído para verificar e, em seguida, ela ouviu gritos e disparos. O homem morreu no local.
A Polícia Civil confirma que se tratava de uma ação da Brigada Militar e que os agentes estavam em busca de uma quadrilha da região. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios de Pelotas.
“São homens e mulheres, são seres humanos que buscam sempre acertar. Nem sempre, eventualmente, acertam, mas na maior parte das vezes acertam e tem todo o nosso crédito”, completou o governador.
O governador Eduardo Leite se manifestou sobre o caso, pedindo “rigorosa apuração” da conduta. “O Rio Grande do Sul tem uma polícia bem preparada, mas não é imune a erros. O importante é que haja sempre uma corregedoria com força para fazer a investigação”, afirmou.
O que diz a BM
A respeito da intervenção policial ocorrida na cidade de Pelotas, a Brigada Militar esclarece que, na madrugada desta quinta-feira (15/01), ao realizar buscas na área rural de Pelotas, após uma ocorrência de roubo a residência registrada na terça-feira (13/01), onde um caseiro foi feito refém por 36 horas, tendo três veículos e um reboque roubados, advém da seguinte dinâmica:
Na quarta-feira (14/01),na cidade de Guaíra no estado do Paraná, a polícia militar local, prendeu dois suspeitos do roubo, residentes em Pelotas, com idades de 20 e 21 anos, ambos com antecedentes por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo, os quais estariam envolvidos no grave crime e na posse dos veículos roubados em Pelotas.
Em posse de informações recebidas da Polícia Militar do Paraná, a Brigada Militar planejou uma operação no local onde haveriam outros indivíduos envolvidos, com armas e veículos roubados. Durante a averiguação ao endereço os policiais militares se depararam com um homem portando uma arma de fogo, o qual não acolheu as ordens policiais, efetuando disparos contra a guarnição, estabelecendo confronto em que resultou na vitimada fatalmente.
O local foi imediatamente isolado e preservado para os trabalhos da perícia técnica. Com o indivíduo, foi apreendida uma arma de fogo, do tipo carabina semiautomática, além de aproximadamente R$ 27 mil em dinheiro e uma pequena quantia em dólar.
A Brigada Militar informa que a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou inquérito policial militar para apurar e esclarecer as circunstâncias do fato.
G1 RS
Receba as principais notícias no seu celular:
https://chat.whatsapp.com/CmyP3litXRj9MiTwu5EkPG
Siga-nos no Facebook:
https://www.facebook.com/www.trespassosnews.com.br






