Política
Foto: PABLO PORCIUNCULA / AFP

O último debate do segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou os dois postulantes à Presidência da República expondo suas propostas para o país a dois dias da eleição.

Promovido pela Rede Globo e mediado pelo jornalista César Tralli, o confronto de ideias foi a derradeira tentativa dos candidatos de buscar, em rede nacional de televisão, angariar a simpatia dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar no domingo (25).

O programa teve quatro blocos com perguntas e respostas diretas entre os candidatos. No primeiro bloco, as rodadas tiveram como tema questões relativas às regiões do país e uma indagação sobre ações de infraestrutura para ampliar as exportações brasileiras. Esse foi justamente o assunto da primeira pergunta, formulada por Flávio a Lula. O senador citou 11 mil obras paradas no país e questionou o presidente sobre como ele pretende investir no setor se não conseguiu concluir os empreendimentos atuais.

— Em nenhum momento da história do país se investiu tanto em obras de infraestrutura como nós investimos nos últimos anos — disse Lula, destacando uma nova edição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), orçado em R$ 1,4 trilhão.

— Vou rasgar esse Brasil de ferrovias, vou concluir a Transnordestina. Vou entregar infraestrutura e a concessão de portos para garantir segurança alimentar — rebateu Flávio, que prometeu ainda pedágio zero para motociclistas e aumento da conexão de internet no país.

Na segunda rodada, dedicada ao Sudeste, Lula perguntou quanto seria o salário mínimo em São Paulo se não fosse os governos do PT.

— Hoje é 23 de outubro. O mês ainda não acabou. O seu salário já acabou? O seu poder de compra foi destruído pelo atual governo porque ele gasta tanto. Por que você endividou o povo brasileiro desse jeito? — devolveu Flávio.

— Se não fosse os governos do PT, Lula e Dilma, se não estivéssemos reajustando o salário mínimo acima da inflação, o salário seria de apenas R$ 900. É isso que eles querem para o Brasil — revidou Lula.

Tecnicamente empatados nas mais recentes pesquisas de intenção de voto, os dois candidatos mudaram de postura em relação ao encontro anterior. Mais contido do que no debate da Band, domingo passado, Flávio evitou críticas mais agudas a Lula, cuidando para não transmitir uma imagem de arrogância, sentimento captado nas pesquisas qualitativas da campanha bolsonarista. Já Lula buscou focar mais na apresentação de propostas para o futuro, após análises internas mostrarem que no embate anterior ele falou muito sobre iniciativas de seus governos anteriores.

Em vários momentos, Lula pedia aos telespectadores que recorressem ao Google para se informar sobre temas do debate. Quando Flávio acusou o petista de prejudicar o agro, ele recorreu ao estratagema pela segunda vez.

— Duvido se em algum momento do governo do pai dele houve investimento no agronegócio como houve no meu governo — desafiou Lula, citando financiamento para pequenos e grandes agricultores para custeio da safra e aquisição de máquinas agrícolas.

— É impossível você plantar e produzir no Brasil com a taxa de juros tão alta. Você ainda contingencia os recursos do seguro rural e do Plano Safra — disse Flávio na réplica.

Quando o tema da pergunta foi o Sul, Lula citou que a região tem o maior número proporcional de aposentados no país. O petista resgatou o “tesouraço” prometido pelo aposentado e fez uma comparação com o corte de gastos públicos praticado pelo governo de Javier Milei na Argentina.

— Na Argentina a pobreza chegou a 40%, o povo está comendo carne de burro e você disse que quer um modelo igual ao do Milei. Você vai reajustar o salário mínimo acima da inflação para todas as categorias, para quem está na ativa e para quem está aposentado? — indagou Lula.

— Vou reajustar sim. Sei que está difícil e vou te ajudar. Quando eu falo do Milei, lá a esquerda governou por 20 anos. O Milei começou um governo com 211% de inflação, teve que consertar as coisas ruins que vocês fizeram lá e eu vou ter que fazer as mesmas coisas aqui — rebateu Flávio.

Pedido de desculpas e direitos de resposta

No segundo e terceiro blocos, as perguntas foram sobre temas pré-determinados. Lula começou chamando Flávio a responder sobre políticas sociais e perguntou por que Flávio foi o único a votar contra o aumento da licença-maternidade. O senador do PL disse que estava equivocado e que hoje não votaria da mesma forma.

Durante a réplica, porém, Lula subiu o tom e reclamou de ter sido chamado de “nove dedos” no bloco anterior.

— Se tem alguém aqui que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu um dedo com 17 anos fui eu, trabalhando de noite. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos — reagiu Lula.

Seguindo a estratégia de não parecer ofensivo com Lula, Flávio se desculpou com o adversário:

— Lula, se eu te ofendi porque te chamei de nove dedos, te peço desculpas, de verdade.

A citação a nove dedos e a milicianos gerou um direito de resposta para cada um.

Pablo PORCIUNCULA / AFP
Debate foi mediado pelo jornalista César Tralli.Pablo PORCIUNCULA / AFP

Quando o tema em discussão foi o Sistema Único de Saúde (SUS), Lula cobrou o adversário pela gestão da pandemia, as 700 mil mortes no país e declarações atribuídas ao escolhido por Flávio para o Ministério da Saúde, Claudio Lottenberg, sobre o financiamento da rede pública.

— Poderia ter salvado ao menos metade das pessoas que morreram e preferiu debochar, imitar as pessoas sufocando. Como você vai fazer o SUS? Você está colocando uma pessoa que não quer colocar dinheiro no SUS — arguiu Lula.

— É óbvio que vai ter investimento no SUS. Meu pai foi salvo de uma facada dada por um ex-integrante do PSOL na Santa Casa de Juiz de Fora. Foi o SUS que salvou o presidente Bolsonaro — comentou Flávio.

Mãe de Ana Clara e ex de Janones

Nos bastidores, o ambiente era de tensão. A equipe de Lula levou ao estúdio Cristina Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um policial militar que tem Flávio como advogado de defesa. Ela ficou sentada na primeira fila de poltronas destinadas aos convidados do petista, ao lado do vice na chapa de Lula, Geraldo Alckmin. Lula aproveitou o tema da retomada dos territórios para questionar o adversário.

— O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil em uma menina de cinco anos. Explica que segurança é essa? — indagou Lula. Nesse momento, Cristina se levantou.

— Sabe o que aconteceu ali? Era um território dominado por narcoterroristas que ele defende. Ana Clara, eu quero falar com a senhora, prestar a minha solidariedade pelo que aconteceu. Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada —  disse Flávio à mãe da menina.

Na plateia, também estava a ex-esposa do deputado André Janones (Rede-MG), aliado de Lula. Prefeita de Ituiutaba (MG), Leandra Guedes tem medida de proteção contra o parlamentar. Ela acusa o deputado de violência psicológica, moral e de ameaçar divulgar fotos e vídeos íntimos dela por vingança e em disputas políticas locais.

Richarlison, uísque, Vorcaro e festa no barco

No último bloco, cada candidato teve oito minutos livres para debater a partir de questionamentos ao adversário. As discussões logo derivaram para uma troca de acusações, girando em torno de uma disputa judicial entre o jogador de futebol Richarlison e o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, sobre a compra de uma casa em Angra dos Reis, uma garrafa de uísque que Lula teria recebido de um emissário do banqueiro Daniel Vorcaro, e os R$ 134 milhões que o senador do PL pediu ao dono do banco Master supostamente para o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

— Quem é amigo do Vorcaro é você. Quem é filhote do Vorcaro é você. Quem recebe dinheiro do Vorcaro é você. Não me coloca nessa vala comum — disse Lula

—Mais uma mentira dele. A Polícia Federal acabou de fazer um relatório dizendo sobre esse filme do presidente Bolsonaro que não tem dinheiro público nele — respondeu Flávio.

O debate descambou para uma troca de ataques, com os dois candidatos se chamando de mentiroso, repetindo acusações sobre supostas irregularidades de lado a lado. Flávio citou suspeitas sobre a atuação de Fábio Luis da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Lula revidou citando a suposta presença de Flávio em uma festa em um barco em Brasília no qual teriam sido negociadas a compra de vacinas a preços maiores do que os de mercado.

Nas considerações finais, Lula lembrou sua trajetória política:

— Domingo é um dia decisivo. Sou um homem que tem biografia, história, uma luta com vocês há muito tempo. Comecei a trabalhar com 12 anos de idade, vendi tapioca, amendoim, sardinha, laranja e virei presidente da República. Queria pedir o voto de vocês porque ou a gente mantém a democracia funcionando ou vamos ter um miliciano governando esse país — disse Lula, gerando novo direito de resposta a Flávio.

Já Flávio, na última manifestação, fez um apelo:

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— Quero me comprometer com três coisas: nunca vou prometer o que não puder cumprir. Vou devolver seu poder de compra, você vai voltar a ter dinheiro no bolso, E vou lutar pela sua liberdade, para você voltar a andar em paz nas ruas. A sua melhorou ou piorou nos últimos quatro anos: Quero te pedir, vote em Flávio Bolsonaro 22, pelo futuro da nossa nação —  encerrou Flávio, pedindo uma Pai Nosso aos apoiadores.

Gaúcha ZH