Política
Foto: Montagem Reprodução

Para 51% dos gaúchos, Eduardo Leite não merece fazer sucessor. O número saiu na rodada da Genial/Quaest desta semana, no meio de dez pesquisas estaduais e passou quase batido, porque estamos todos ocupados contando o empate entre Juliana Brizola e Luciano Zucco. Mas essa é uma das informações mais interessantes que o Rio Grande do Sul produziu esta semana.

Interessante porque vem colada a outro número, da mesma pesquisa, da mesma amostra. 48% aprovam o governo Leite; 42% desaprovam. Não é uma gestão repudiada. E o mesmo eleitorado que assina esse atestado de aprovação avisa, em sua maioria, que não quer a continuação dele.

Gabriel Souza, o vice, o escolhido, a cabeça da chapa 100% Rio Grande, marca 6%. Um oitavo da aprovação do governo que ele representa. Nas duas simulações de segundo turno em que aparece, leva 20% contra Brizola e 20% contra Zucco. Perde por 15 e por 12 pontos, respectivamente.

Existe uma explicação confortável para isso, e ela tem sua parte de razão. Vice-governador vive na sombra do titular, e há meses cientistas políticos repetem que boa parte do eleitorado gaúcho simplesmente não sabe quem é Gabriel Souza. A propaganda eleitoral só começa em 16 de agosto e, por enquanto, o desconhecimento sobre o candidato beira os 80%. A esperança do candidato, portanto, reside nos 43% do eleitorado que não está alocado em candidato nenhum, entre indecisos e voto branco ou nulo, e nos impressionantes 62% que avisam que ainda podem mudar de ideia.

O incômodo, para o governo, é que desconhecimento produz “não sei”, não produz “não merece”. Os 51% não são um vácuo de informação, são uma sentença.

E uma sentença com currículo. Desde 1998, quando a reeleição passou a valer no Brasil, o Rio Grande do Sul foi o único estado da federação que nunca reelegeu um governador. Tarso Genro tentou em 2014 e perdeu para José Ivo Sartori, que fez sessenta e um por cento no segundo turno. Sartori tentou em 2018 e perdeu para Eduardo Leite, que fez cinquenta e três. A tradição só caiu em 2022, e caiu de um jeito muito gaúcho. Leite tinha renunciado ao cargo em março daquele ano para disputar as prévias do PSDB, perdeu para João Doria, voltou para casa e venceu Onyx Lorenzoni no segundo turno. O TRE-RS o registrou como tecnicamente reeleito, com a ressalva de que ele havia renunciado antes. O gaúcho precisou que o homem levantasse da cadeira para aceitar sentá-lo nela outra vez.

Agora Leite não pode mais disputar, e a régua do estado volta ao lugar de sempre.

Vale reparar no que esse hábito diz sobre a relação do eleitor do RS com quem governa. Aprovação, para o gaúcho, funciona como recibo, não como procuração. O sujeito reconhece o serviço prestado, acha até que foi bem feito, e não conclui daí que alguém tenha adquirido direito a coisa alguma. Confere a conta, paga e vai embora. Em quase todo lugar do país popularidade é capital político, moeda que o governador transfere para o afilhado no palanque. No RS, ela vence junto com o mandato.

Tem ainda o detalhe que fecha o raciocínio de um jeito desagradável. Perguntados pela Quaest qual é o pior problema do estado, 34% dos gaúchos responderam “enchente”. Mais que saúde, que aparece com 18%. Dois anos e dois meses depois de maio de 2024, a água continua sendo a primeira coisa que vem à cabeça de um em cada três eleitores do estado. A reconstrução foi uma vitrine do governo Leite com o Plano Rio Grande, o eixo do discurso, do orçamento e das viagens de captação lá fora. O eleitorado olhou para a obra, deu 48% de aprovação, e entendeu que aquilo não gera contrato novo.

Do outro lado do balcão o consolo também é escasso. Juliana Brizola lidera com 24% e carrega 33% de rejeição, a maior da tabela, ou seja: mais gente a rejeita do que vota nela. Zucco tem 22% e 20% de rejeição. Somados, os dois candidatos não alcançam a metade da amostra. O que a Quaest fotografou então tem menos cara de preferência e mais cara de sala de espera.

Alguém vai ganhar em outubro, é claro. E daqui a quatro anos vai estar sentado exatamente onde Leite está hoje, com o governo aprovado por quase metade do estado e o sucessor marcando seis por cento.

Gaúcha ZH/Gabriel Sant’Ana Wainer

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