Política
Foto:: Renato Pizzutto / Band

A uma semana da eleição, Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformaram o primeiro debate do segundo turno numa troca sucessiva de acusações. Em programa promovido pela Rede Bandeirantes na noite deste domingo (18), os candidatos passaram mais tempo se acusando de corrupto e mentiroso do que apresentando propostas sobre o futuro do país.

Tecnicamente empatados nas últimas pesquisas, eles se enfrentaram durante duas horas, quase sempre deixando as perguntas sem respostas. O programa foi mediado pelos jornalistas Eduardo Oinegue e Adriana Araújo. Eles abriram o programa questionando os candidatos sobre os impactos da redução da maioridade penal nos índices de violência e pedindo propostas para melhoria da segurança pública. Flávio prometeu criar mais de 500 mil vagas no sistema carcerário.

— Eu vou declarar guerra ao narcotráfico. Vou recuperar cada metro, cada rua, cada bairro, cada cidade e território que foi tomado do povo brasileiro. Vou para dentro desses marginais com leis mais duras. Os líderes das facções vão ficar até 80 anos preso — disse Flávio.

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Em sua vez de responder, Lula citou a proposta de emenda constitucional enviada ao Congresso que permite à União formular políticas de segurança em conjunto com o Estados:

— Os Estados fracassaram. Nenhum conseguiu resolver a segurança pública. Se o Senado votar a PEC da Segurança, eu criarei imediatamente o Ministério da Segurança Pública para que a gente possa libertar as comunidades.

A pergunta seguinte foi sobre economia. Oinegue citou a taxa de juros elevada e a dívida pública como principais desafios ao crescimento e indagou que medidas cada candidato pretende adotar para não comprometer o futuro do país.

— Esse país cresceu 7,5% em 2010 e depois que deixei à Presidência só voltou a crescer acima de 3% quando voltei à Presidência. Nós precisamos fazer o dinheiro circular nas mãos das pessoas. Muito dinheiro nas mãos de pouco significa pobreza e miséria. Pouco dinheiro na mão de muitos significa riqueza — afirmou Lula.

— A sua vida melhorou ou piorou? A comida está mais cara ou mais barata? Quanto está o preço do arroz, do feijão, da carne, na sua casa? Há quanto tempo você não coloca um pedaço de carne no seu congelador? É isso que o governo está entregando e por isso que o Brasil já escolheu a mudança e vai escolher de novo no segundo turno — revidou Flávio.

Em seguida, os dois candidatos puderam debater livremente por 30 minutos, com cada um tendo 15 minutos para falar. Lula começou perguntando ao adversário por que, em 2009, Flávio havia votado contra o aumento da licença-maternidade.

— O que você tem contra as mulheres? — perguntou Lula.

Na resposta, Flávio disse que não tinha nada contra as mulheres, citou a esposa Fernanda e perguntou se Lula conhecia a lobista Roberta Luchsinger, investigada por suspeita de atuar junto a Fábio Luis da Silva para intermediar interesses privados no governo federal.

— Ela é sócia do seu filho. Por que a Polícia Federal só vai na casa dela e não vai na casa do seu filho, o Lulinha? — disse Flávio.

Lula e Flávio ficaram os minutos seguintes trocando acusações de corrupção e mentira. Lula citou a demissão do então ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, Sergio Moro, que saiu acusando o presidente de interferir na Polícia Federal para proteger os filhos, investigados por suspeita de corrupção. Flávio rebateu dizendo que no governo Lula “há muitas quadrilhas” e voltou a citar Lulinha, que hoje mora na Espanha.

— A Polícia Federal até hoje não foi atrás do seu filho. Por que ele está fugido na Espanha? Por que ele não está aqui? — provocou Flávio.

— O seu irmão está fugido nos Estados Unidos, tramando contra o Brasil. O que vocês estão fazendo é trair a pátria e vocês serão julgados por isso — disse Lula, citando Eduardo Bolsonaro, que vive no Texas.

O debate em torno de suspeitas de corrupção perdurou todo o primeiro bloco, com citações ao desvios nos vencimentos de aposentados e pensionistas do INSS, os R$ 130 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro dados ao filme Dark Horse, entre outros escândalos. Circulando pelo estúdio, Flávio e Lula ora ficavam frente a frente, ora davam as costas um ao outro.

Lula disse que Flávio contou 43 mentiras para explicar a relação mantida com Vorcaro. Já o senador do PL afirmou que o adversário era o único no estúdio que havia sido condenado por corrupção. O tom subiu quando Flávio pediu para Lula ficar mais perto dele.

— Não quero ficar perto de você, quero distância de miliciano — disse Lula.

— Melhor ficar longe mesmo que a minha carteira deve ser roubada — devolveu Flávio.

Durante praticamente todo os 30 minutos do embate, não houve discussão de políticas públicas, nem apresentação de propostas. O único momento dedicado ao futuro do país foi ao final, quando o tempo de Flávio se esgotou e Lula aproveitou para citar programas de seu governo e prometer a ampliação de ações na educação.

No segundo bloco, Lula e Flávio foram questionados por Adriana Araújo sobre propostas para a saúde pública. Flávio disse que vai elevar o SUS a um “padrão Einstein”. Lula rebateu dizendo que a promessa é típica de quem não conhece a rede pública. Novamente houve tensão entre os candidatos, com ambos trocando provocações.

Em seguida, começou uma fase de perguntas diretas entre os candidatos.

Eles discutiram segurança pública, pandemia, fim da escala 6×1 e custo da alimentação.

— Tá tudo caro, nem os R$ 600 do Bolsa Família, que na época do presidente Bolsonaro enchia um carrinho, você sabe que não enche mais — disse Flávio.

— O custo de vida está caro, mas estava mais caro no governo do pai dele. Nos quatro anos do governo deles, a inflação da alimentação foi de 56%. Agora, nos meus quatro anos está 13% — rebateu Lula.

No terceiro bloco, ambos responderam a uma pergunta da Band sobre como aumentar a produtividade da mão de obra brasileira. Lula salientou investimentos em economia digital, economia criativa e economia verde. Flávio disse que vai promover prosperidade com conectividade digital.

— O mais importante é a formação de profissionais. Vamos formar milhares e milhares de jovens, sobretudo em engenharia e matemática — prometeu Lula.

— Vou fazer o maior programa de mobilidade social da história desse Brasil. Vou conectar o governo com a área de recursos humanos das empresas e você vai saber se perto da sua casa tem alguma empresa que se encaixa no seu perfil — afiançou Flávio.

Em nova rodada de questionamentos entre os candidatos, eles se confrontaram discutindo a relação do Brasil com os Estados Unidos, a exploração de terras raras, corrupção e violência. Lula desafiou duas vezes Flávio a abrir seu sigilo bancário e telefônico para que a sociedade pudesse tirar a limpo os contatos e as finanças de cada um. Flavio rebateu sugerindo que Lula recebe recursos clandestinamente.

Pouco antes das considerações finais, a plateia se manifestou ruidosamente, interrompendo o começo da fala de Lula. A última manifestação do petista só recomeçou após intervenção dos mediadores. O burburinho se repetiu no pronunciamento final de Flávio, que também precisou parar e aguardar silêncio para se despedir dos espectadores.

O primeiro debate entre os principais candidatos à Presidência reuniu centenas de pessoas na sede da Band em São Paulo. Flávio chegou às 19h25min. Lula chegou pouco depois, às 19h38min. Eles permaneceram em salas separadas até o começo do programa. Lula estava acompanhado do vice Geraldo Alckmin e políticos do PT, como o ex-ministro Camilo Santana. Com Flávio estavam o deputado Nikolas Ferreira (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

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Do lado de fora da emissora, apoiadores gritavam palavras de ordem e de incentivo aos dois políticos. Um total de 120 convidados assistiu ao debate de dentro do estúdio, entre autoridades e dirigentes empresariais. Nos intervalos, cada candidato tinha três assessores autorizados a acessar o palco e dar orientações.

Gaúcha ZH