Educação
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“Apanhei minha infância inteira e estou aqui” ou “a dor faz a criança pensar bem antes de aprontar de novo” são algumas das justificativas usadas pelos pais que utilizam palmadas, chineladas, beliscões e outras agressões físicas para educar seus filhos. No entanto, bater na criança pode torná-la uma pessoa violenta, fazer com que sinta medo e raiva dos pais, e ainda trazer sérias consequências psicológicas.

O que fazer para ser mais paciente com os filhos?

Uma pesquisa realizada pela Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e divulgada em 2016, por exemplo, mostrou que os filhos educados com violência têm maior chance de desenvolver comportamento antissocial, baixa autoestima e dificuldades para se expressar. Os pesquisadores analisaram estudos dos últimos 50 anos com cerca de 160 mil crianças e também percebeu que as vítimas têm maior risco de desenvolver doenças mentais e de estabelecer uma relação negativa com os pais durante toda a vida.

 “Ou seja, ainda que tenha um efeito imediato, já que a criança encerra um mau comportamento porque sente dor, a palmada e outras forma de agressão não servem para modificar o comportamento dela e ainda podem trazer danos”, garante a psicóloga e pesquisadora Lídia Weber.

Segundo ela, o modelo educacional que utiliza agressões faz com que a criança obedeça por medo, e não como resultado de um aprendizado. Além disso, ela pensará que precisa ser perfeita para ser amada e pode começar a agir escondido para evitar novas surras. “Quando os pais batem ou humilham seus filhos, eles usam o amor e a confiança justamente contra eles”, pontua Lídia, que é doutora em psicologia e professora sênior da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Quando os pais batem ou humilham seus filhos, eles usam o amor e a confiança justamente contra eles”, pontua a doutora em psicologia Lídia Weber.

O uso de agressões no processo educacional ainda faz com que o filho acredite que essa é uma forma eficaz para resolver problemas e replique as mesmas atitudes em seu relacionamento com os irmãos, colegas de escola e no ambiente familiar que estabelecerá no futuro.

“Sem dizer nada, estamos mostrando que a força e a coerção são maneiras perfeitamente aceitáveis de conseguir o que se quer”, explica a especialista, que aponta agressões em casa como um dos principais motivos para os filhos realizarem atos de bullying no ambiente escolar e se envolverem em relacionamentos amorosos abusivos a partir da adolescência. Afinal, “eles aprendem a ‘associar’ amor e dor, então acreditam que quem ama pode machucar”.

Vale ressaltar também que, além de trazer consequências mentais à criança, agredir os filhos é crime no Brasil desde 2014, quando entrou em vigor a Lei da Palmada. Nela, “qualquer ação punitiva ou disciplinar aplicada com o emprego de força física que resulte em sofrimento físico ou lesão” é ilegal e pode ser punido com a participação em programas sociais, tratamento psiquiátrico ou perda da guarda da criança, dependendo da gravidade do caso.

“Como os pais vão ensinar essa criança a fazer amigos, respeitar, ser empática, generosa e a tolerar diferenças se eles batem nela?”, questiona Lídia.

Só que, mesmo com a Lei a favor da educação sem violência, ainda é comum presenciar situações em que pai e mãe perdem a paciência com o filho publicamente ou dentro de casa e lidam com a situação usando tapas, chacoalhões, puxões de orelha e outras agressões. “Aí eu pergunto: Como os pais vão ensinar essa criança a fazer amigos, respeitar, ser empática, generosa e a tolerar diferenças se eles batem nela?”, questiona Lídia.

Educação positiva

Foi essa reflexão que fez a empreendedora Klébia de Oliveira Chagas, de 39 anos, tomar a decisão de educar sua filha Isadora somente com diálogo e consequências lógicas. “Fui criada com agressões físicas severas e fiquei com marcas emocionais por causa disso”, afirma a paranaense, que teve dificuldade de relacionamento com os pais por muitos anos. “Lembro de uma vez em que eu e meus irmãos apanhamos tanto que tivemos que ser internados. Então, não quero nada disso para minha filha”.

Segundo ela, a falta de carinho dentro de casa também a privou de viver momentos especiais com seus pais e trouxe muito sofrimento à família. “Por isso, decidi perdoá-los e seguir em frente”, relata a moradora de Curitiba, que agora age de maneira diferente com a filha, estabelecendo regras claras e apresentando argumentos coerentes para cada situação. “Explico bem as coisas para ela e se, mesmo assim, ela fizer algo errado, lidará com a consequência porque vai ficar sem TV, celular ou algum brinquedo, por exemplo”.

Essa decisão de educar a filha sem agressões, de acordo com a doutora em psicologia Lídia Weber, é essencial para a saúde psicológica da criança e favorece mudanças reais no comportamento dela. “Afinal, os castigos corporais não ensinam como o filho deve agir e ele aprende somente a evitar uma surra e a fugir do agressor”.

A educação positiva, por outro lado, faz com que o filho confie nos pais, seja autêntico dentro de casa e tenha certeza de que é amado. “Hoje a Isadora tem nove anos, é uma menina feliz, questionadora e não nos obedece por medo porque sabe que pode ser ela mesma dentro de casa”, afirma Klébia. “Sei que não sou perfeita, mas percebo bons resultados na educação que escolhi para minha filha e faço o possível para cobri-la com bastante carinho e amor“.

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