Saúde
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Passados mais de cem dias de distanciamento social para parte da população no Rio Grande do Sul, e mesmo na iminência de um possível lockdown nas regiões do Estado mais afetadas pelo coronavírus, crescem as demonstrações de pessoas descumprindo as regras impostas pelos governos para conter a pandemia. Entre as justificativas estão a questão financeira e a saudade dos familiares e amigos.

No Estado, um problema da flexibilização do comportamento é que ele está ocorrendo exatamente no pior momento da pandemia para os gaúchos: as baixas temperaturas exigem mais cuidados e a situação das UTIs piora a cada dia.

Para o coordenador do Grupo de Pesquisa Avaliação em Bem-estar e Saúde Mental da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS), Wagner de Lara Machado, professor da graduação e pós-graduação em Psicologia na universidade, a mudança no comportamento pode ser explicada pelo tempo que as pessoas estão expostas à situação.

— Quando se tem a percepção de medo ou risco, o corpo se prepara para reagir mobilizando as forças psicológicas e os aspectos fisiológicos. Porém, essa reação tem um período de duração para cada ser humano, e não é para sempre. Com o passar do tempo, começamos a ficar menos sensíveis a esses estímulos: o medo já não causa tanto medo e vamos nos acostumando com as notícias ruins. As pessoas vão perdendo a sensibilidade a esses estímulos negativos — justifica o especialista.

Em casa desde março, a autônoma Janaina Nessi, 34 anos, de Canoas, decidiu voltar à ativa nas últimas semanas, quando começou a sentir os primeiros sintomas da depressão devido ao isolamento, à falta de alternativas para a questão financeira e à saudade dos pais.

— Estávamos inventando coisas pra fazer, mas não tive alternativa. Voltei a visitar os meus pais, com todos os cuidados, e estou trabalhando até dois dias por semana. Fora isso, as saídas são somente pra supermercado, farmácia e ferragens — garante.

Cinco ações para se manter bem

A ruptura total da rotina da maioria das famílias, a questão econômica, uma doença ainda sem tratamento, o período de distanciamento social, a falta de socializar e as notícias ruins todos os dias e por meses são fatores para desenvolver estresse crônico, aponta a professora de farmacologia da Universidade Federal do RS (UFRGS) e pesquisadora em saúde mental da universidade e do Hospital de Clínicas Adriane Rosa.

— Há indivíduos mais resilientes, que possuem reservas internas e que conseguem lidar com a situação, e os mais suscetíveis, que podem se desestabilizar emocionalmente, ficando mais ansiosos, mais tensos, preocupados, deprimidos e com alterações de sono — explica.

Adriane sugere cinco ações cruciais para se manter bem, emocionalmente falando: encontrar uma nova rotina dentro de casa, praticar exercícios físicos no domicílio, criar técnicas de relaxamento (ler, cantar, dançar, ouvir música, meditar, ver um filme), interagir com familiares e amigos de forma virtual para manter os vínculos e ter autocuidado (cuidar a alimentação, reduzir o álcool e dormir bem). Ela alerta que, depois da pandemia de coronavírus, muitas pessoas poderão desenvolver estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e alteração de sono porque é a forma como conseguem reagir à situação adversa.

Também coordenadora da pesquisa online Covid-19 Saúde Mental: Usando a Tecnologia Digital para Avaliação das Consequências da Pandemia, que envolve um grupo multidisciplinar de pesquisadores da UFRGS e do Hospital de Clínicas, Adriane relata que a análise preliminar do estudo, realizado desde junho e que, até agora, recebeu o retorno de 2 mil pessoas de todo o Brasil, apontou 13 tipos de transtornos psiquiátricos entre os entrevistados. Os sintomas de ansiedade apareceram em 80% das pessoas. Outros 60% apresentaram reflexos de depressão, sintomas somáticos de fundo emocional, alteração do sono ou sentimento de raiva.

— A importância de termos esse diagnóstico é para, num segundo momento, termos políticas públicas para estas pessoas que precisam de auxílio — relata Adriane.

Na tentativa de evitar sintomas de estresse ou depressão, a fotógrafa Ana Meinhardt, de Porto Alegre, optou por começar a sair de casa com a família, no último mês, para passeios curtos em meio à natureza em cidades da Região Metropolitana. Também voltou a visitar os pais.

— Buscamos lugares isolados e vazios para espairecer e pegar um sol. Meus pais e meus sogros sentiam muita falta da neta — conta Ana, que é mãe de Bibiana, de quatro anos.

Lidar com o cerceamento de liberdade e manter o equilíbrio emocional é o X da questão, acredita a psicóloga Ilana Andretta, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unisinos.

— Se as pessoas sobrevivem a situações extremas numa guerra ou a confinamentos muito piores, por exemplo, por que não conseguimos sobreviver por um período com todo o conforto dentro de casa? Este é o momento para termos ainda mais empatia e nos colocarmos no lugar do outro — ressalta Ilana.

Mestre em psicologia social e institucional, a psicóloga Marília Jacoby salienta que a exaustão e o estresse são comuns e até esperados depois de tantos meses de isolamento, e sem uma perspectiva concreta de a pandemia arrefecer. O importante, sublinha Marília, é poder buscar ajuda profissional quando e se estiver ficando muito difícil suportar a situação e reforçar as redes de apoio a distância, formada por familiares e amigos.

— Este período de agravamento nos demanda um senso de coletividade, apesar das dificuldades inerentes — finaliza Marília.

GZH