Especial
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Eles custam pouco e dá para parcelar a perder de vista.

É tempo de Black Friday, também conhecida por aqui como Black Fraude, e dessa vez não vamos só fazer de conta que as TVs, os iPhones e os videogames baixaram de preço. Neste ano, vamos oferecer uma nova categoria, realmente rebaixada e remarcada: os professores. Baratinhos, baratinhos. E ainda dá para parcelar.

Aconteceu no Rio Grande do Sul, mas também é a realidade de boa parte do país. O governador e gato Eduardo Leite deixou um pacote com uma bomba dentro para os servidores estaduais e foi-se, em viagem financiada pela Fundação Lemann, discutir políticas públicas na Universidade Columbia. Premiar os bons meninos é prática desde que o mundo é mundo.

Enquanto o governador voava as tranças para um ambiente bem mais calmo e controlado que a praça da Matriz, na frente do seu palácio, desde sempre palco de protestos dos servidores, os professores fizeram o que lhes cabia: protestaram. Se o pacote molotov de Mr. Governor puniu todo o funcionalismo, terminou por liquidar de vez o magistério. Plano de carreira, aposentadoria, tira logo esses acessórios para diminuir o preço. É tempo de Black Friday ou não?

A partir da aprovação do pacote, professor com ensino médio, 40 horas, ganha o piso de R$ 2.557. Só não vai gastar em bobagem, por favor. Com pós-graduação, mestrado ou doutorado, pode atingir incríveis R$ 3.887,30. No papel, porque há 47 meses o salário dos servidores estaduais vem sendo parcelado no Rio Grande do Sul.

Quem comprou um Celta em 48 prestações já vai quitar o possante, enquanto que os funcionários acumulam consignado em cima de consignado, sem prazo para ver o fim do carnê.

Mas o diabo sabe para quem aparece. Se em lugar de alfabetizar crianças ou ensinar matemática o jovem, lá no início da vida, escolher a Brigada Militar, já arranca com R$ 4.689,27. Salário de cadete. Quando chegar a coronel, vai perceber R$ 27.919,16. Aí a expressão faz sentido, até dá para perceber que o salário entrou. Nada contra quem ganha melhor. O problema é essa repartição desigual da miséria, não tem dinheiro para todos, então passa um troco para os professores e não se incomoda com as tropas.

Professor só fica gritando na frente do palácio. As tropas, nunca se sabe. Moral da história: hoje em dia, nos outrora orgulhosos pampas, um coronel vale por 7,18 professores com doutorado. Não poderia existir retrato melhor do país.

Coluna da Claudia Tajes* na Folha de São Paulo de segunda-feira 18/11/2019.

*Claudia Tajes é escritora e roteirista. Tem 11 livros publicados. Em novembro, lança a novela ‘Macha’.