Saúde
Foto: Reprodução

Academia todos os dias, inclusive aos domingos. Exercícios aeróbicos cada vez mais puxados para eliminar aquela gordurinha que ninguém vê. Musculação, crossfit ou qualquer atividade que propicie o aumento da massa muscular e aquela sensação de força, de corpo malhado igual aos estampados nas capas de revista e redes sociais por celebridades.

Para garantir bons resultados, os esforços físicos são acompanhados de dietas exageradas, uso de anabolizantes ou outras substâncias e, mesmo assim, ao olhar para o espelho, a imagem que se vê é a de um corpo fraco, frágil e pouco definido.

Conhecida como vigorexia, o transtorno dismórfico muscular é a incompatibilidade entre o corpo de uma pessoa e a imagem que ela tem de si própria. “Por mais musculoso que esteja, o indivíduo sempre vai se achar fraco e franzino, e então inicia uma busca obcecada pela perfeição física”, explica o psicólogo do Hospital Israelita Albert Einstein Thiago Amaro.

Assim como a anorexia – quando a pessoa se vê sempre acima do peso e a busca pela magreza passa dos limites saudáveis – a vigorexia é motivada pelos padrões de beleza que, de forma excessiva, cultuam o corpo sarado, com abdômen e pernas definidos e braços durinhos.

Com 1 metro e 70 de altura, 60 quilos, cintura fina, pernas e braços torneados, a engenheira Nathália Bravo, de 28 anos, ainda não está satisfeita com o corpo. “Acho que ainda preciso emagrecer três quilos. Gosto de ter a barriga chapada e as pernas definidas”, diz. Para manter o corpo em dia, frequenta a academia seis vezes por semana.

Lá, faz pelo menos uma hora de atividade aeróbica em grupo – como bike, corrida e dança – e pelo menos 40 minutos de musculação. Apesar de achar que não exagera, ela conta que levou um susto no dia da sua festa de aniversário, em junho. “Eu estava achando que meu corpo não estava legal e quando abri meus presentes, eram todas roupas tamanho P ou número 36. Pensei: será que as pessoas me veem muito sarada e só eu não consigo enxergar?”, indagou.

Predominante em homens, especialmente com idades entre 18 e 35 anos, a vigorexia está classificada na medicina como um transtorno obsessivo compulsivo. Essa busca incessante por uma perfeição corporal que não existe pode trazer sérias consequências à saúde pelo aumento de lesões musculares, consumo indiscriminado de anabolizantes, suplementos alimentares e dietas restritivas que não conseguem suprir as necessidades do organismo. “Questões como saúde ou qualidade de vida deixam de ser o foco, e a pessoa não mede esforços para alcançar o objetivo. Ela exagera nos exercícios, copia dietas que pegou na internet, não come direito”, diz Thiago Amaro.

Pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, com 14.891 jovens entre 18 e 24 anos mostrou que 22% dos homens e 5% das mulheres têm comportamentos alimentares desordenados motivados para o aumento da musculatura.

No estudo, estudo publicado em junho deste ano no International Journal of Eating Disorders, eles disseram comer mais ou de forma inabitual para ganhar peso, usarem esteroides anabolizantes ou ainda as duas opções.

De acordo com o trabalho, 6,9% dos homens relataram o uso de suplementos para ganhar peso ou aumentar os músculos e 2,8% assumiram a ingestão de esteroides anabolizantes. Já entre as mulheres, os percentuais foram significativamente menores: 0,7% e 0,4% respectivamente. Estes comportamentos podem se transformar em dismorfia muscular. “Entre os prejuízos do consumo de substâncias assim estão lesões no fígado, perda de nutrientes e desregulação do metabolismo. É uma degradação do corpo em busca da perfeição”, explica Thiago Amaro.

Corpos frequentemente lesionados e ansiedade para a prática de exercícios físicos também são características de pessoas com vigorexia. “Elas exageram e se machucam. Em muitos casos, deixam de ter convívio social por acharem que não estão bem fisicamente ou por priorizarem sempre a rotina da academia”, explica o profissional de educação física e conselheiro do Conselho Federal de Educação Física, Marcelo Ferreira Miranda.

O especialista lembra que o diagnóstico de uma pessoa com transtorno dismórfico muscular não é simples. O motivo é que muitas vezes a preocupação exagerada com o tamanho dos músculos, as dietas e a rotina de academia são confundidas com hábitos saudáveis. Por isso, educadores físicos, familiares e amigos têm papel fundamental no reconhecimento da doença.

“É preciso estar atento. O Conselho orienta que os profissionais da área destaquem aos alunos que os benefícios da atividade física vão além da aparência. Ela melhora o sono, previne doenças cardiovasculares e crônicas degenerativas, propiciam bem-estar”, conta. E mais que isso: melhorar a autoestima dos alunos, não estabelecer metas audaciosas e exageradas e comemorar os resultados ajudam, segundo ele, a prevenir que os alunos de academia entrem no ciclo vicioso pelo corpo perfeito.

Tratamento

Uma vez constatada a doença, o tratamento é multidisciplinar e envolve desde o preparador físico até nutricionista e psicoterapeuta. A equipe ajudará o paciente a identificar as mudanças no comportamento e visão distorcida que ele tem do seu próprio corpo. Em alguns casos, é necessário o uso de medicamentos para controle de ansiedade, depressão e sintomas de obsessão-compulsiva. “Quando se trata de transtornos como este, é difícil falarmos em cura porque nem sempre é possível separar o comportamento da personalidade da pessoa. O que fazemos é ajudá-la a lidar melhor com a situação”, afirma o psicólogo Thiago.

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