Saúde
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O Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde que acompanha fatores de risco para doenças crônicas e que, pela primeira vez, incluiu perguntas sobre sono, apontou que 31,7% dos adultos das capitais brasileiras relataram ao menos um sintoma de insônia.

O índice chega a 36,2% entre as mulheres e fica em 26,2% entre os homens. Outros 20,2% disseram dormir menos de seis horas por noite.

Apesar da frequência, a maior parte dessas pessoas nunca procurou ajuda. Em muitos casos, mudanças simples de rotina podem melhorar a qualidade do sono. São medidas reunidas sob o conceito de higiene do sono, mas que têm efeito limitado quando o problema já se tornou crônico. A seguir, confira:

Oito medidas para melhorar o sono

As orientações são um primeiro passo e podem ser suficientes para quadros leves e recentes. Quando a insônia persiste por meses, porém, podem ajudar, mas dificilmente resolvem o problema sozinhas.

1. Fixe o horário de acordar, não o de deitar

A hora de levantar tem papel importante na regulação do relógio biológico e na criação da chamada pressão do sono, que aumenta ao longo do dia e favorece o adormecimento à noite.

regularidade deve ser mantida também aos fins de semana, com diferença de no máximo uma hora.

Dormir muito mais tarde no sábado e no domingo pode provocar o chamado jet lag social, uma dessincronia semelhante à causada por uma viagem entre fusos horários. O efeito costuma aparecer na dificuldade para dormir no domingo à noite.

2. Tome sol logo cedo

A exposição à luz natural pela manhã ajuda a regular o ritmo circadiano, ciclo interno de aproximadamente 24 horas responsável por organizar os períodos de sono e vigília.

O efeito não é imediato. A luz recebida pela manhã ajuda a sinalizar ao organismo quando o ciclo deve acontecer e influencia o sono da noite seguinte.

3. Corte telas e conteúdos que aceleram a cabeça

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Redes sociais, notícias, jogos ou trabalho mantêm o cérebro em estado de alerta.Reprodução / adobe.stock.com

A luz emitida pelas telas pode reduzir a produção de melatonina, hormônio envolvido na sinalização de que é hora de dormir. Mas o conteúdo consumido também interfere.

— Redes sociais, notícias, jogos ou trabalho mantêm o cérebro em estado de alerta justamente quando ele deveria iniciar o processo de desaceleração. Não é apenas a luz azul que atrapalha: o cérebro também responde ao estímulo cognitivo e emocional — pondera Lorena.

4. Tome o último café seis a oito horas antes de deitar

cafeína bloqueia a ação da adenosina, substância que se acumula ao longo do dia e contribui para a sensação de sono. A meia-vida da cafeína, ou seja, o tempo necessário para o organismo eliminar metade da quantidade ingerida, varia de cinco a oito horas e pode ser ainda maior em algumas pessoas.

Por isso, a recomendação prática é interromper o consumo de seis a oito horas antes de deitar. 

E não é apenas o café que entra nessa conta. Também contêm cafeína:

  • Chá-preto
  • Chá-verde
  • Energéticos
  • Refrigerantes à base de cola
  • Chocolate

5. Não use o álcool para pegar no sono

O álcool pode provocar sonolência e facilitar o início do sono, mas o efeito muda ao longo da noite

Na segunda metade, a bebida aumenta os despertares, fragmenta o descanso, reduz o sono REM, associado aos sonhos e à consolidação da memória, e favorece roncos e episódios de apneia.

— Muitas pessoas acreditam que dormiram bem apenas porque adormeceram rapidamente, quando, na verdade, a qualidade do sono foi bastante prejudicada — comenta a neurologista.

6. Faça atividade física, mas observe o horário

prática regular de exercícios está entre as intervenções não medicamentosas mais eficazes contra a insônia. A atividade física pode:

  • Reduzir a ansiedade
  • Melhorar o humor
  • Aumentar a profundidade do sono
  • Contribuir para a regulação do ritmo circadiano

O horário, porém, pode fazer diferença. Exercícios leves ou moderados no início da noite costumam ser bem tolerados.

Já treinos muito intensos perto da hora de dormir podem elevar a temperatura corporal, a frequência cardíaca e o estado de alerta em algumas pessoas.

7. Evite cochilos longos

O cochilo prolongado durante a tarde pode reduzir a pressão natural do sono e dificultar o adormecimento à noite. Quando necessário, o ideal é limitar a duração a 20 ou 30 minutos e fazê-lo preferencialmente antes das 15h.

Para pacientes com insônia crônica, pode haver orientação para suspender temporariamente o cochilo durante o tratamento, favorecendo a consolidação do sono noturno.

8. Se não dormir, saia da cama

Passar horas na cama tentando dormir pode reforçar a associação entre o quarto e a frustração. Se o sono não aparecer em cerca de 20 minutos, a recomendação é levantar, fazer uma atividade relaxante em ambiente com pouca iluminação e retornar à cama apenas quando a sonolência voltar.

O ambiente também deve favorecer o descanso. O ideal é manter o quarto escuro, silencioso e confortável. Além disso, a cama deve ser reservada para dormir. 

Em quanto tempo o sono pode melhorar?

Algumas pessoas percebem melhora nas primeiras semanas após ajustar a rotina, mas resultados mais estáveis podem levar de quatro a oito semanas. Além disso, as medidas não devem ser tratadas como solução universal. 

— Apenas orientações genéricas de higiene do sono podem ser úteis, mas nem sempre são suficientes para tratar um quadro persistente — alerta a psicóloga Denise Milk, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).

Quando a insônia já se tornou crônica, o tratamento considerado de primeira linha é a TCC para Insônia. A abordagem conhecida como TCC-I reúne técnicas como:

  • Controle de estímulos
  • Reorganização dos horários
  • Estratégias cognitivas
  • Educação sobre o sono

Dificuldade para dormir ou insônia?

Dormir mal deixa de ser uma fase passageira e passa a ser considerado um transtorno quando a dificuldade ocorre pelo menos três vezes por semana durante três meses ou mais e provoca prejuízos no dia seguinte. Esse é o critério internacional que diferencia uma noite ocasionalmente mal dormida da insônia crônica.

A condição pode se manifestar de diferentes formas:

  • Dificuldade para iniciar o sono: demora para adormecer
  • Despertares frequentes: interrupções do sono durante a noite
  • Despertar precoce: acordar antes do horário desejado e não conseguir voltar a dormir

Em qualquer um dos casos, o diagnóstico também considera o impacto durante o dia. Entre os sinais estão:

  • Fadiga
  • Falta de concentração
  • Irritabilidade
  • Falhas de memória
  • Queda de rendimento no trabalho

Quando dura menos de três meses, o quadro é classificado como insônia aguda e costuma estar relacionado a fatores passageiros. Entre os gatilhos mais comuns estão:

  • Estresse
  • Luto
  • Viagens
  • Dor
  • Doenças

O problema é que, sem tratamento, a dificuldade para dormir pode se prolongar e se transformar em um padrão. Estudos populacionais, como o da Academia Americana de Medicina do Sono, estimam que a insônia crônica, acompanhada de prejuízos durante o dia, atinja de 10% a 15% dos adultos.

— Muitas pessoas normalizam anos de sono ruim e só procuram ajuda quando a qualidade de vida já está bastante comprometida — observa Lorena Bochenek, neurologista do Hospital Mater Dei Goiânia.

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Necessidade varia de pessoa para pessoa e é influenciada por fatores como idade e genética.Reprodução / adobe.stock.com

As tradicionais oito horas de sono por noite não são uma regra universal. A maioria dos adultos precisa de sete a nove horas, mas a necessidade varia de pessoa para pessoa e é influenciada por fatores como idade e genética.

Mais importante do que seguir um número fixo é observar como o organismo responde.

Segundo Lorena, quem acorda descansado e consegue manter a atenção, a memória, a produtividade e a disposição ao longo do dia provavelmente está dormindo o suficiente. Há quem funcione bem com sete horas e quem precise de nove.

O que pode causar insônia?

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Dificuldade para adormecer é comum em pessoas com ansiedade e hiperativação cerebral.thebigland / adobe.stock.com

Se a dificuldade persistir mesmo com mudanças de rotina mantidas de forma consistente, é preciso investigar outras possíveis causas. O próprio padrão dos sintomas pode oferecer pistas.

  • Dificuldade para adormecer: é comum em pessoas com ansiedade e hiperativação cerebral
  • Despertares frequentes: podem estar relacionados à apneia do sono, quando a respiração é interrompida por instantes durante a noite, além de dor crônica, refluxo, síndrome das pernas inquietas ou problemas no uso de determinados medicamentos
  • Despertar precoce: pode aparecer em quadros depressivos, alterações do ritmo circadiano e também com o envelhecimento

Alterações hormonais e doenças neurológicas estão entre outras condições capazes de manter a insônia.

Para Lorena, um dos erros mais comuns é tentar tratar apenas o sintoma sem investigar sua origem.

— Recorrer apenas a medicamentos para dormir sem entender a origem da insônia não funciona. Em muitos pacientes, a combinação de terapia cognitivo-comportamental, mudanças de hábitos e tratamento da causa de base traz resultados duradouros, muitas vezes reduzindo ou até eliminando a necessidade de hipnóticos, os remédios indutores do sono — afirma.

Quando procurar ajuda

Alguns sinais indicam que a dificuldade para dormir pode estar relacionada a condições que exigem investigação médica. Entre eles estão:

  • Ronco intenso
  • Pausas na respiração durante o sono
  • Movimentos desconfortáveis nas pernas
  • Sonolência excessiva durante o dia

Nesses casos, a mudança de rotina pode não ser suficiente para tratar a causa do problema.

— A insônia tem tratamento. Quanto mais cedo identificamos a causa, maiores são as chances de recuperar um sono saudável e evitar que um problema transitório se torne crônico — conclui Lorena.

Gaúcha ZH

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