Nove meses depois de o governo do Estado e o Ministério da Saúde anunciarem medidas para reduzir as filas de espera por médicos especialistas no Sistema Único de Saúde (SUS), a situação pouco mudou no Rio Grande do Sul.
Segundo dados obtidos pelo Grupo de Investigação (GDI) da RBS, via Lei de Acesso à Informação, quase 670 mil pessoas ainda esperam por uma consulta especializada. Em alguns casos, a espera chega a sete anos.
Os números revelam que, mesmo com programas lançados pelas esferas municipal, estadual e federal, o tamanho da fila praticamente não diminuiu desde dezembro do ano passado, quando o GDI começou a acompanhar o problema.
Oftalmologia e ortopedia lideram a procura
Entre as especialidades mais demandadas estão oftalmologia (153.988 pedidos), ortopedia (80.363), reabilitação (43.040), cirurgia geral (38.701) e otorrinolaringologia (32.381).
A lista totaliza 667.892 pedidos de consulta em todo o Estado.
Em Alvorada, o aposentado Juarez Antônio Machioli espera desde 2021 por uma consulta com um especialista em ouvidos.
Se eu não tomar uma providência, posso ficar surdo. Espero que me chamem antes que seja tarde, desabafa.
Esperas que chegam a sete anos
A história do aposentado Claudino Moraes Munhoz é um retrato da lentidão no sistema. Em dezembro, ele completará sete anos aguardando um especialista em tratamento bariátrico pelo SUS.
Está exatamente como da primeira vez que nós conversamos. Nenhum exame, nenhuma consulta, nada foi solicitado, lamenta.
Acompanhado em tempo real pelo GDI, o caso dele foi mostrado pela RBS TV em fevereiro e junho. Desde então, a situação piorou.
Eu não consigo ficar muito tempo de pé, não consigo caminhar. Tenho dificuldade até para fazer as coisas básicas dentro de casa, relata.
De acordo com o governo do Estado, o tempo médio de espera por uma cirurgia bariátrica é de 832 dias, cerca de dois anos e três meses. Já o tratamento para transtorno do espectro autista (TEA) registra média de 868 dias de espera.
Famílias aguardam tratamento para autismo
A dona de casa Priscila Amaral Capitão, mãe de duas crianças diagnosticadas com TEA, espera há quase dois anos o início do acompanhamento especializado.
O Bernardo tem atraso na fala e apraxia, tem dificuldade até de escrever o próprio nome. A Manuela tem rigidez, o que atrapalha muito o dia a dia. Meus filhos poderiam estar voando, mas a gente só espera, lamenta.
Em Passo Fundo, um paciente que preferiu não se identificar aguarda desde fevereiro de 2024 por atendimento urológico.
Eu fiz a biópsia há quase dois anos e até hoje não consegui mostrar o exame a um médico. A gente fica nessa angústia, sem saber o que pode estar acontecendo, contou.
Segundo o levantamento, a espera média por um urologista é de 441 dias.
Investimentos e impasses na gestão da saúde
Após investigações e condenações que atingiram gestões anteriores, e uma denúncia sobre o descumprimento do índice mínimo de investimento em saúde, o Ministério Público firmou um acordo com o governo do Estado. O pacto determina que o Rio Grande do Sul aplique 12% da receita em saúde até 2030, de forma escalonada.
O Conselho Estadual de Saúde, porém, contesta o acordo. Em moção aprovada em agosto, o colegiado defendeu que o percentual seja aplicado imediatamente, e não gradualmente. O conselho também criticou uma cláusula que permite reavaliar os repasses em caso de dificuldades financeiras do Estado.
Pedimos providências ao Conselho Nacional de Saúde e ao Ministério Público Federal. Já recebemos resposta de que a Comissão de Saúde do MPF não se sente competente para julgar o termo. Agora, estamos avaliando qual instância recorrer, explicou um representante do Conselho Estadual.
O que dizem governo e ministério
O Ministério Público Estadual não quis comentar as críticas.
Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde (SES) afirmou que o programa “SUS Gaúcho” já contabiliza 30 mil consultas médicas extras realizadas e agendadas, com investimento de R$ 1,025 bilhão entre 2025 e 2026.
O projeto tem como meta reduzir 70% das filas por primeiras consultas nas especialidades de ortopedia de joelho e oftalmologia geral adulto até o fim do ano. Para isso, a SES negociou com prestadores a realização de 77 mil consultas extras nessas áreas das quais 30 mil já foram reguladas. Também está prevista a realização de 10 mil cirurgias ortopédicas de joelho, com investimento estimado em R$ 175 milhões até dezembro.
O Ministério da Saúde, por sua vez, declarou que a gestão das filas cabe aos estados e municípios, responsáveis diretos pela oferta e regulação dos serviços. Em apoio, o governo federal lançou o programa “Agora Tem Especialistas”, com mutirões e ampliação de horários em hospitais universitários.
Entre as ações, destaca-se que, em um único dia, os hospitais universitários HU-UFPel, HUSM e HU-Furg realizaram mais de 2,3 mil atendimentos nos mutirões de julho e setembro.
O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) também ampliou o atendimento para o terceiro turno, somando 541 mil exames, 5,1 mil cirurgias e 1,8 mil consultas entre junho e outubro de 2025.
Problema estrutural e persistente
Apesar das medidas, especialistas apontam que as filas do SUS no Rio Grande do Sul seguem como um problema estrutural. A demanda cresce mais rápido que a capacidade de atendimento, o que exige investimentos contínuos, gestão eficiente e planejamento regionalizado.
Enquanto isso, centenas de milhares de gaúchos seguem à espera, muitas vezes convivendo com dor, incerteza e a sensação de esquecimento.
G1 RS
Receba as principais notícias no seu celular:
https://chat.whatsapp.com/CZoNAa3A1cd9K2twPZowdb
Siga-nos no Facebook:
https://www.facebook.com/www.trespassosnews.com.br






