Saúde
Foto: Lana Pietukhova/stock.adobe.com

As chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam espaço no tratamento da obesidade e do sobrepeso. Os medicamentos injetáveis podem reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade.

Apesar dos benefícios, interromper o tratamento sem orientação médica pode causar efeitos negativos, como o reganho de peso e a regressão dos resultados obtidos.

Em alguns casos, o uso do medicamento pode se estender por anos e ser associado à reeducação alimentar e à prática de exercícios físicos.

Veja perguntas e respostas sobre o tema:

Como as canetas agem?

As canetas promovem um conjunto de respostas sinérgicas que facilitam a restrição alimentar, levando o paciente a comer menos e, consequentemente, à perda de peso.

O funcionamento ocorre por meio de mecanismos que atuam de forma conjunta no organismo. Os principais efeitos incluem:

  • Retardo do esvaziamento gástrico: a medicação faz com que o estômago se esvazie mais lentamente. Com isso, o alimento permanece por mais tempo no órgão antes de seguir para o intestino, prolongando a sensação de saciedade
  • Ação no cérebro: os medicamentos atuam no hipotálamo, região do cérebro que controla a fome e a saciedade. Eles ativam neurônios que fazem com que a pessoa se sinta satisfeita com uma quantidade menor de comida e, ao mesmo tempo, reduzem a sensação de fome
  • Ação no pâncreas: originalmente desenvolvidas para tratar o diabetes tipo 2, essas drogas estimulam o pâncreas a liberar insulina em resposta à alimentação, ajudando a normalizar os níveis de glicose no sangue sem provocar hipoglicemia

Além da perda de peso, determinados medicamentos dessa classe demonstraram benefícios relacionados ao controle da glicemia e à redução de riscos associados a doenças cardiovasculares. 

Quando é recomendado parar?

Segundo Rogério Friedman, endocrinologista dos hospitais de Clínicas e Moinhos de Vento e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), não existe uma regra única para definir quando um paciente deve interromper o tratamento.

Para pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, por exemplo, o tratamento pode ser prolongado, já que se trata de condições crônicas que exigem acompanhamento contínuo.

— Nesses casos, a indicação pode ser de uso contínuo. Estamos tratando de problemas crônicos e recidivantes — acrescenta o endocrinologista Fernando Gerchman, que é professor da UFRGS.

No entanto, a suspensão pode ser considerada em diferentes situações, como:

  • Efeitos colaterais: a interrupção do uso da caneta é recomendada quando os efeitos adversos comprometem a qualidade de vida ou não podem ser controlados. Sintomas como dor abdominal intensa, que pode estar relacionada a problemas como pancreatite, ou sinais de doença da vesícula biliar precisam ser avaliados pelo médico e podem levar à suspensão do medicamento
  • Meta e estabilização: quando o paciente alcança e estabiliza um peso saudável, o médico pode programar uma redução gradual da dose, processo conhecido como desmame. A suspensão total costuma ocorrer quando o período de uso da medicação é aproveitado para uma reeducação alimentar e a adoção de exercícios físicos, que ajudam a manter o peso e a saúde

É possível usar as canetas por muitos anos?

Sim. Para alguns pacientes, especialmente aqueles com obesidade, o tratamento medicamentoso pode fazer parte de uma estratégia de longo prazo, que pode durar anos.

Isso acontece porque a obesidade é uma doença crônica — que não tem cura. Assim, a necessidade de manter o medicamento não deve ser avaliada apenas pelo peso atingido, mas também pelas condições de saúde associadas e pela resposta ao tratamento.

Pode ocorrer ganho de peso após a suspensão?

Sim. Recuperar parte do peso após a interrupção do medicamento é comum, mas, segundo Friedman, isso não significa que seja inevitável

De acordo com o especialista, o reganho de peso geralmente ocorre em razão da interrupção inadequada do uso das canetas, sem planejamento médico ou quando o paciente não segue uma rotina de cuidados, como reeducação alimentar e prática de exercícios físicos.

O ganho de peso pode ocorrer meses depois e é causado, entre outros fatores, porque os efeitos do medicamento sobre a fome e a saciedade deixam de atuar após a suspensão.

— Interromper o tratamento sem supervisão médica, sem planejar o momento de parada, o que vai acontecer? Meses depois, o apetite e o peso voltam. A pessoa volta a ter fome, volta a ter vontade de comer e começa a ganhar peso de novo e, às vezes, volta ao peso inicial. A parada do remédio tem que ser planejada — explicou o médico.

Para evitar isso, o período de uso da medicação deve ser encarado como uma oportunidade para promover a reeducação alimentar. É essencial adotar uma dieta equilibrada, com ingestão adequada de proteínas e boa hidratação, a fim de preservar a saúde metabólica após a interrupção do uso das canetas.

O que pode ajudar depois que o paciente para de usar as canetas?

Conforme o especialista, o tratamento da obesidade não termina quando a aplicação da caneta é suspensa. Os resultados podem ser mantidos por meio de mudanças comportamentais e no estilo de vida. Entre as recomendações que ajudam a estabilizar o quadro do paciente após o uso do medicamento estão:

  • Prática regular de exercícios físicos: além de contribuir para a manutenção do peso, a atividade física, especialmente os exercícios de força, como a musculação, ajuda a preservar a massa muscular durante e depois do processo de emagrecimento. Também traz benefícios psicológicos e previne outras doenças, como problemas cardiovasculares e metabólicas
  • Alimentação adequada: manter uma alimentação equilibrada, com ingestão adequada de proteínas, fibras e outros nutrientes, é fundamental para a saúde e para a manutenção dos resultados obtidos durante o tratamento
  • Acompanhamento médico e nutricional: mesmo após a suspensão da caneta, o paciente deve continuar sendo acompanhado. A avaliação permite identificar mudanças no peso, no apetite ou em outras condições de saúde e definir, quando necessário, uma nova estratégia de tratamento
  • Atenção ao sono e ao estresse: sono inadequado e níveis elevados de estresse podem interferir no comportamento alimentar e na saúde metabólica. Por isso, também devem fazer parte dos cuidados após a suspensão.

Gaúcha ZH

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