Bichos
Especialista afirma ser uma jararaca. Foto: Douglas Vinicius Konrad/TP News

O registro de aparecimento de cobras e de acidentes, inclusive com morte, aumentou, neste verão, no Noroeste do RS. Sempre que o fato é publicado, o tipo de espécie e se o animal deve ser morto ou deixado viver livre na natureza divide opiniões de internautas. As discussões são acaloradas, mas o importante é saber o tipo de serpente e entender o motivo de seu aparecimento em áreas urbanas. Só na região de abrangência da 19ª Coordenadoria Regional de Saúde (19ª CRS), que também pertence Três Passos, foram 44 acidentes envolvendo cobras no ano de 2019 e oito até 10 de fevereiro de 2020.

Na última semana, o morador Douglas Vinicius Konrad, de 29 anos, caminhava perto de um açude, nos arredores da cidade de Esperança do Sul, quando uma cobra lhe deu o bote, não o alcançando. Seu cachorro, no entanto, não teve a mesma sorte e acabou picado. Em casa, aplicou vacina no animal e conseguiu salvá-lo. “Era uma jararacuçu de 1,30 metro de comprimento, e o corpo tinha o tamanho de uma garrafinha de água mineral”, disse ao Três Passos News.

Cobra jararacuçu. Foto: Ilustração

Carlos Toffolo, biólogo de Passo Fundo, viu a reportagem e esclareceu que imagem mostra uma jararaca, que apesar de ser peçonhenta, evita-se 95% dos acidentes utilizando luvas e botas de borracha nas atividades. “Jararacussu é uma serpente rara, o único local de ocorrência dela é o Parque Estadual do Turvo, devido a sua grande extensão. Sou biólogo, trabalho com anfíbios e répteis, inclusive dou palestras sobre a importância das serpentes na natureza. Não pode ser encontrada em ambientes urbanos ou rurais, ela é uma espécie bio-indicadora de ambientes preservados (só habita esses ambientes)”, escreveu ao Três Passos News.S

Animal perigoso, mas que deve ser preservado

É uma serpente majestosa e vigorosa, considerada a segunda maior serpente peçonhenta do Brasil. Na fase adulta, seu comprimento pode atingir até 2,20 metros. A coloração da jararacuçu exibe diferenças ao longo de seu desenvolvimento e entre os sexos, neste último, conhecido como dicromatismo sexual. Nas fêmeas jovens, o dorso apresenta coloração variando de amarelada a bege rosado, enquanto nos machos é escuro com manchas de amareladas a marrom-acinzentadas. Entre os adultos, as fêmeas exibem intensa divergência de cor entre as manchas pretas e o fundo amarelo, enquanto nos machos adultos o fundo apresenta cor castanha ou acinzentada. As fêmeas são maiores que os machos, o que é comumente observado na maioria dos membros da Família Viperidae. Devido à impecável camuflagem desta serpente, percebê-la em seu ambiente natural, notadamente envolta na serapilheira das áreas florestadas é um enorme desafio. A jararacuçu é uma serpente Sul-Americana, registrada no Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Em território nacional, habita a região Sul e Sudeste, além dos Estados da Bahia e do Mato Grosso do Sul.

Pode chegar até 2,20 m de comprimento. Foto: Ilustração

De hábitos florestais, esta viperídia tem preferência por áreas de floresta úmida e semi-decídua de Mata Atlântica, embora não só no interior da floresta, mas na sua periferia e até em áreas abertas. Sua distribuição avança em biomas interioranos e é comum ser encontrada junto a matas ciliares, próximas às rochas que margeiam riachos e córregos. Adultos e filhotes são considerados terrícolas, possuindo hábito diurno e noturno. Durante o dia costumam se expor ao sol e a noite caçam suas presas, no entanto, os jovens também são observados se alimentando durante o dia.

Assim como as demais serpentes peçonhentas, a jararacuçu está envolvida em grande parte dos acidentes registrados no país, denominados acidentes ofídicos. Estes acidentes resultam em envenenamento subsequente à inoculação de peçonha pelo aparelho inoculador dessas serpentes, atingindo animais e humanos.  Acidentes envolvendo esta serpente costumam ser graves, devido ao fato da espécie injetar cerca de 4 ml de peçonha na vítima, considerada uma grande quantidade. Dentre os sintomas associados aos acidentes por jararacuçu, observam-se edema e dor no local da picada, hemorragias, infecção, necrose e insuficiência renal.

A reconhecida gravidade dos acidentes relacionados às serpentes do grupo botrópico, particularmente por jararacuçu, lhe trás um estigma de perseguição e morte. No entanto, é preciso destacar a importância da diversidade biológica no equilíbrio dinâmico dos ecossistemas. Ademais, nem todas as serpentes são tanatofídios, ao contrário, a grande maioria das espécies não tem interesse médico, do ponto de vista dos acidentes com vítimas. É importante lembrar que serpentes possuem importante papel ecológico no ecossistema, como predadoras de topo, controlando a população de roedores. Na saúde e pesquisa, seu veneno tem sido utilizado para estudos e produção de medicamentos, soros e vacinas. Por conta disso é fundamental a preservação destas espécies. (Animais Bussines)

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