Denúncia
Foto: Leandro Lopes / Canguçu Online

Três mulheres acusam o médico ginecologista Cairo Barbosa de ter cometido abuso sexual durante consultas realizadas em Canguçu. Os casos, segundo as ex-pacientes, foram compreendidos entre os anos de 2012 e 2017. A Polícia Civil indiciou o profissional pelo crime de violação sexual mediante fraude, que tem uma pena de reclusão de dois a seis anos, e remeteu o inquérito ao Ministério Público (MP). O órgão já realizou a denúncia do profissional. A juíza que cuida do caso deferiu duas medidas cautelares contra ele: o afastamento imediato do trabalho junto ao Hospital de Caridade de Canguçu, onde atuava, e a suspensão da atividade médica, o que irá impedi-lo de exercer a função em seu consultório a partir do dia 5 de junho. A defesa pode recorrer. A reportagem tentou falar com o médico, que foi orientado pelo advogado a não falar sobre o caso.

Na entrevista exclusiva ao Canguçu Online, as três mulheres contaram com detalhes a maneira como aconteciam as consultas. Chamam atenção algumas práticas à margem do procedimento normal de exames ginecológicos, como a não utilização de luvas e a estimulação do clitóris das pacientes. Situações que, segundo elas, aconteceram quando não estiveram acompanhadas de algum familiar.

O medo em revelar a identidade fez as três mulheres optarem por se manterem anônimas nesta reportagem. Nos relatos a seguir, portanto, elas são identificadas como Paciente A, Paciente B e Paciente C.

“Mãezinha de primeira viagem”

Hoje aos 29 anos, a Paciente A afirma ter sido vítima do médico Cairo Barbosa nos anos de 2012 e 2016. Na primeira ocasião, quando estava grávida do primeiro filho. “Eu já ouvia falar mal dele sobre as histórias, que ele gostava de molestar mulheres. Então eu sempre evitava cair no plantão dele. Mas teve um dia que eu não tive como evitar, eu não tinha condições de estar pagando médico particular e eu caí nas mãos dele. Eu já estava quase ganhando (o filho), faltavam em média três semanas para ganhar o meu bebê. E aí eu cheguei no hospital com a mãe, ele não deixou a mãe entrar. Disse que não precisava de acompanhante”, relatou.

Foi neste cenário de vulnerabilidade que, segundo a jovem, o crime teria sido cometido. “Eu entrei para a sala, ele mandou eu me despir da cintura para baixo e me deitar na maca para o exame. Me deitei. Ele disse ‘bom, agora vou fazer contigo um exame para estimular os movimentos do bebê’. E aí ele começou a me alisar no clitóris. Eu achei muito desconfortável aquele exame, mas eu não sabia o que estava se passando. Eu não tinha ideia. Como eu era marinheira de primeira viagem, eu pensava ‘que exame bem diferente, não passei por nenhum assim’. Mas achei estranho e muito desconfortável. Quando eu saí da sala, saí bem ruim. Ele, dentro da sala, teve a audácia de olhar para mim e dizer: ‘Eu gosto de mãezinha de primeira viagem porque elas não teimam’. E eu só fiquei quieta, não tive reação. Fiquei meio que em estado de choque.”

A Paciente A relatou ter procurado, então, uma amiga que trabalhava no local. O objetivo era esclarecer se aquele tipo de exame existia. Ouviu da mesma que não se tratava de um procedimento padrão. “Eu entrei em desespero. Eu queria ir todos os dias no hospital para ver se eu ganhava o meu filho o quanto antes para não ganhar no dia dele (do médico acusado).” Após insistir por ajuda, a mesma recebeu auxílio da amiga do hospital que viabilizou uma cesariana. O parto do primogênito, que já estava grande conforme apontava o ultrassom, foi realizado sob a tutela de uma médica.

A segunda gestação da mesma mulher, no entanto, quase terminou em perda do bebê, de acordo com a mesma. Três anos e meio depois, estava grávida havia cerca de cinco meses. “Novamente eu fui no hospital. Caí num plantão dele novamente. Na minha cabeça eu pensava ‘não, agora ele não vai fazer de novo. Agora eu não sou mais a mãezinha de primeira viagem que nem ele disse’. Mas infelizmente se repetiu, o caso. Eu mais uma vez me calei por precisar do SUS”, disse.

“Eu teria perdido meu filho”

Próximo ao nascimento prematuro do filho, a Paciente A começou a sentir dores. Ao ver o mesmo médico atendendo-a, pediu pela presença do marido como acompanhante. “Como eu já me tratava psicologicamente, né… Psicologicamente ele dizia que eu não tinha nada. Que as dores que eu tinha eram ‘uma dor sem-vergonha’”, recordou. “Ele não queria fazer em mim injeção de corticoide para amadurecimento dos pulmões (do bebê). Graças a Deus a enfermeira que estava com ele no dia disse ‘doutor, quem sabe vamos dar uma injeção nela para ver se amadurece o pulmão do bebê, caso ela esteja entrando em trabalho de parto’. De fato eu estava. Eu passei a noite com muita dor, muita dor. Toda vez que ele vinha me examinar eu chamava meu marido.”

As cenas seguintes, segundo ela, foram marcadas por momentos desesperadores. “Quando trocou o plantão, veio outra médica e disse que eu já estava sangrando, estava em trabalho de parto e que eu precisava de uma UTI Neonatal o mais depressa possível porque meu filho ia nascer. Ou seja, se eu tivesse aguardado por ele, porque ele tinha mandado eu ir na segunda, eu teria perdido meu filho. Porque eu passei um bom tempo com ele no hospital, numa UTI, vendo ele (o bebê) parar de respirar, horrores, pelo descaso dele, a (falta de) vontade de ajudar, ligar para um hospital para ver se tinha vaga. Porque poderia ter ido antes, ter passado menos sofrimento, ter me feito as duas injeções de corticoide… Não, ele se negou”, recordou.

Foto: Leandro Lopes / Canguçu Online

“Ele encostou o órgão genital ereto na minha perna”

Profissional conhecida em Canguçu, a Paciente B afirma ter sido molestada em 2017. Após uma gravidez inesperada, foi consultar com o médico.

“Ele tem uma maca na sala dele, e pediu para me examinar. Somente eu e ele, não tinha ninguém junto. Ali, ele pediu para tirar toda roupa. Ele perguntou quando eu tinha tido minha última relação sexual. Eu falei para ele que achava que tinha sido uns dois dias atrás, três dias. E dali ele começou a fazer o que dizia ser um exame porque ele precisava colher material para ver se eu não tinha algum fungo. (Disse) que ele precisava estimular para sair líquido para ver se eu não tinha algum fungo. Começou a me examinar sem luvas, a me tocar, sendo que eu vi depois de um tempo. No início custou a me cair a ficha, mas depois eu percebi que, como já tinha tido duas gravidezes, comecei a perceber que não era um exame normal. Como eu já tinha consultado com outros médicos, nunca, nenhum outro médico tinha feito aquele tipo de exame de ficar me estimulando, mexendo no meu clitóris, enfiando os dedos em mim, sem luva. Com a mão direita ele fazia isso, me estimulava e fazia com que, nas palavras dele, eu me molhasse. E com a outra mão ele ficou alisando o meu corpo. Passava a mão pela cintura, chegava até os seios. Alisava meus seios, descia a mão de novo, passava a mão atrás em mim e não parava de estimular o meu clitóris, porque depois de um tempo eu percebi que estava sendo molestada, mesmo. Que aquilo não era um exame normal. Ele pedia para eu relaxar, enquanto fazia isso, porque eu comecei a ficar tensa e comecei a ficar com o corpo duro, a me endurecer. Aí me dei por conta mesmo que não era normal aquilo que ele estava fazendo. Ele só dizia ‘relaxa, relaxa.’ (…) Ele deve ter ficado mais de cinco minutos fazendo isso e dizendo que ia mandar o material para análise. Na verdade, ele não coletou nenhum material. Ele fez aquilo como uma desculpa para me tocar daquela maneira e, depois que ele encostou em mim do lado da maca, que dava na altura da cintura dele, ele encostou o órgão genital dele ereto na minha perna. Eu senti que estava ereto. E continuou fazendo. Continuou me alisando. Alisando meu corpo, com a mão esquerda alisando meu seio, minha cintura e a parte detrás, as minhas costas. E com a mão direita ele estimulava a minha vagina, o clitóris e também enfiava os dedos em mim, de uma maneira até bem violenta, eu posso dizer”, descreveu a mulher, hoje com 43 anos.

Cairo teria então pedido para que o real exame fosse feito em outro lugar. “Levei os resultados para ele. Ele mandou eu de novo ir para a maca porque precisava examinar como eu estava. E aí ele fez de novo a mesma coisa. Então comigo foram duas vezes. Ele praticou o mesmo abuso, do mesmo jeito, e pediu para eu seguir indo toda semana para me ver, mas daí eu não fui mais (…) Eu achei que ele não ia fazer e por isso confiei”, contou.

Com traumas psicológicos, que ainda serão detalhados nesta reportagem, a paciente passou por um aborto espontâneo com 12 semanas de gravidez.

“Pediu para eu me desvestir toda”

A Paciente C, atualmente com 44 anos, estava com sangramentos havia três meses. Com dores e poucos ginecologistas atuando durante aquele período de Carnaval, recorreu ao médico em questão. “Eu fui sozinha para consultar com ele. Quando eu entrei na sala, ele pediu para eu me desvestir toda. Ficar nua. Pediu para eu deitar na maca porque ele precisava me examinar (…) Pediu para eu deitar, começou a me alisar com uma mão, me molestar com outra, perguntando se eu estava sentindo orgasmo, e dava sorrisos debochados para mim. E como ele tinha dito que aquilo podia ser uma infecção ou um pedaço de sujeira que tinha ficado dentro, eu fiquei com aquilo na cabeça. Então ele estava fazendo um exame em mim, mas eu estava achando que era um exame de rotina. Mas como ele começou a perguntar se eu estava sentindo orgasmo, e eu já tinha tido outros filhos e eu nunca tinha passado por um exame desses, eu senti que não era normal. E aí eu me reprimi. Aí ele viu. Fiz uma demonstração de ansiedade porque eu tinha vontade de fugir de dentro da sala dele. E aí ele parou, disse ‘vamos parar o exame por aqui’. Ele foi ao banheiro, tudo sem luva também, e voltou como se nada tivesse acontecido”, relatou.

Cairo também teria sido grosseiro quando a paciente justificou que não teria condições de pagar por determinados procedimentos. “Ele ainda foi muito rude comigo porque ele disse assim: ‘Eu vou ter que desenhar o problema para ti? Porque tu estás brincando. Pelo sangramento que tu estás, tu já eras para estar dentro de uma UTI, tu já podias estar até morta. Tu não tens escapatória, tu és obrigada porque eu sou único na cidade, tu és obrigada a pagar para fazer porque esse exame não cobre pelo SUS’. Eu disse ‘doutor, eu não tenho esse dinheiro’. Aí eu fui embora e ele disse para mim assim: ‘Olha, eu vou te dizer, eu não vou desenhar o teu caso. Teu caso é gravíssimo’”.

Traumas e consequências

Crises no casamento, depressão, automutilação e tentativas de suicídio foram as consequências relatadas pela Paciente A após as consultas. Hoje, afirma não aceitar abraços nem mesmo do marido. Diz abraçar os filhos, mas considera o toque de pele difícil. “Eu não posso demonstrar para eles. É algo que se torna mais um trauma para mim”, contou à reportagem.

A indiferença no modo que diz ter sido tratada a levaram a atitudes extremas. “Sofro de depressão desde então, já passei por várias internações hospitalares. Faço automutilação, tentei suicídio várias vezes, diversas vezes, porque a gente se sente incapaz. A gente vai perdendo o gosto pela vida porque é um crime de tamanha dimensão que a gente não sabe explicar. Parece que tu não vale nada para o mundo para uma pessoa simplesmente chegar e fazer isso contigo. Parece que teu valor acabou. Porque ele não está nem aí para o teu sentimento, o que está acontecendo contigo. Ele simplesmente quer ter o prazer dele”, disse.

Paciente B também precisou de tratamentos após as consultas. “Nunca superei o trauma. É horrível (…) Desencadeou depressão, síndrome do pânico e insônia. Tive que começar um tratamento bem longo para depressão. Tomei remédios para o dia, fiz terapia e os remédios da noite. Já faz quatro anos isso aí (…) Há pouco tempo que consegui parar com os remédios do dia. Porém, com o remédio da noite, de insônia, eu não consigo parar. Tenho pesadelos e muitas das vezes ainda cruzo com ele aqui na cidade. Fiquei bem traumatizada”, comentou.

Paciente C afirma não ter precisado auxílio psicológico após as consultas. A relação com familiares, no entanto, foi abalada. “A relação com meu esposo ficou diferente. A gente não tem a mesma relação. Cada vez que vai ter relação sexual ‘tu’ ficas com aquilo assim: será que não vai acontecer a mesma coisa? Mesmo que seja o teu marido. Será que não estão só te zoando? Será que ele está com prazer de ter relação contigo ou só fazendo para se confortar? Fica uma coisa… A gente fica constrangida e fica tensa na hora da relação. Não é a mesma coisa que tinha antes”, relatou.

Para a mãe de 44 anos, esconder das filhas o acontecimento é uma das coisas mais difíceis. “É brabo para a gente olhar para a filha da gente, querer orientar para não acontecer e tu não saber como que tu vai chegar e conversar”, disse.

A decisão por denunciar

As três mulheres ouvidas pela reportagem denunciaram o médico na Polícia Civil. De acordo com a Paciente B, o medo de ser julgada a fez até mesmo escolher o tipo de roupa para prestar queixa.

“Fiz a denúncia porque tenho filha e não quero que um dia caia nas mãos de um… Nem sei se dá para chamar de profissional. O que classifica ele é um maníaco”, comentou. “O que mais me encorajou foi a impunidade que isso há muitos anos vem sendo tratado. Não vou culpar as autoridades, mas isso vem acontecendo há muitos anos, mesmo. Posso dizer que mais de 30 anos porque a minha mãe, já na época dela, sabia de relatos, e isso se conversa em vários lugares. Sempre que se fala com alguém as pessoas sabem de alguém que passou por algum abuso sexual por parte dele. E também me encorajou outras mulheres que conheço, humildes, e que não têm a coragem de falar. De repente estão sofrendo, mesma coisa que eu, e estão caladas. Com um trauma enorme”, afirmou.

Para as outras duas mulheres as denúncias contra João de Deus, que resultaram na condenação do médium, serviram para encorajá-las. “Eu nunca tive coragem de falar porque tinha medo por eu ser de família humilde. Ele tem dinheiro, já tem anos de experiência aqui na cidade como médico, então eu me calei. Tanto que minha denúncia faz três anos que eu fiz e eu fiz porque vi a matéria do João de Deus passando na televisão e aí eu resolvi e disse: ‘Chega, se alguém não tomar a frente não vai acontecer justiça nunca’. Eu acredito muito na justiça divina, mas a gente também tem que fazer a nossa parte. Então foi o que eu fiz. Fui lá, fiz a minha, denunciei. Eu não desejo o mal dele de maneira alguma. Não! Mesmo sendo horrível tudo o que eu passei, eu não consigo desejar o mal. Mas que ele não clinique mais, para mim já está bom que ele não atenda mais. Que ninguém mais precise passar pelo que eu passei. Que ninguém mais venha a sofrer depois de vários transtornos e depressão por causa de algo assim”, disse a Paciente A.

“Estamos começando pequeno, com poucas pessoas, para cassarem ele, ele não exercer mais a profissão. Não que isso seja um orgulho para a gente. Não. Para a gente ter um pouco de alívio e (para que) outras pessoas não passem pelo que a gente passou”, relatou a Paciente C.

O que diz a Polícia Civil

A Polícia Civil recebeu quatro denúncias acusando o médico por ter cometido o crime de violação sexual mediante fraude. Um dos casos, entretanto, prescreveu já que remete à década de 1990. “Os outros três inquéritos foram concluídos. Houve investigações que findaram no indiciamento deste acusado”, disse o delegado titular de Canguçu, César Nogueira.

De acordo com a Polícia Civil, mulheres que porventura tenham sofrido o mesmo tipo de violência devem procurar a delegacia para que o caso também seja investigado.

Delegado César Nogueira (Foto: Leandro Lopes / Canguçu Online)

O que diz o Ministério Público

“Dentro da investigação policial há fortes indícios de que isso de fato tenha acontecido. Se isso de fato vem acontecendo, vinha acontecendo, é nosso dever tentar estancar. Que a gente tente proteger outras mulheres de virem a ser vítimas de outras situações semelhantes. Então é com esse intuito, de evitar a reiteração, e também de evitar que haja interferência na coleta de provas e que outras eventuais vítimas sejam estimuladas a falar, que há esse pedido de afastamento das funções”, disse a promotora responsável pelo caso, Luana Rocha Ribeiro.

A análise dos especialistas da área médica

Dois médicos ouvidos pelo Canguçu Online, sob condição de terem as identidades mantidas em anonimato, explicaram como se dão os exames ginecológicos. Ambos afirmaram que o uso de luvas durante os procedimentos são obrigatórios para a proteção das pacientes e do próprio médico.

“Não existe nenhuma manobra que envolva a manipulação do clitóris. Exame ginecológico convencional não tem rotina no clitóris”, afirmou um ginecologista de outro município gaúcho.

Segundo outro médico consultado pela reportagem, também de outra cidade, “o exame ginecológico é feito com um espéculo vaginal para visualizar as paredes internas da vagina e o colo do útero.”

De acordo com Código de Ética Médica, não existe obrigatoriedade que haja um acompanhante na sala de exame. No entanto, o médico é obrigado a permitir a entrada de acompanhante se assim a paciente desejar.

Imagens: Leandro Lopes / Canguçu Online
Reportagem: Renan Turra